A Mulher com o Fluxo de Sangue
Doze anos de hemorragia, doze anos de ruína nas mãos de médicos, doze anos de ser impura para toda mão que a pudesse ter ajudado. Numa multidão que a comprime, ela estende a mão para a orla da sua veste, certa de que um simples toque bastará — e Eu sou a certeza nos seus dedos.
Doze anos são tempo suficiente para enterrar toda a esperança que uma mulher tem para si mesma. Vi a sua morrer lentamente, como uma candeia que se apaga quando o azeite escasseia — não de repente, mas trémula a trémula, médico a médico, moeda a moeda, até ter gasto tudo o que possuía em curas que só a faziam piorar e não lhe restar nada além da própria hemorragia, paciente e impiedosa, e o isolamento que a lei lhe exigia por causa dela. Nenhum marido a podia tocar sem se tornar ele próprio impuro. Nenhum vizinho podia partilhar a sua mesa. Nenhum sacerdote a podia abençoar sem o ritual que a sua condição tornava impossível. Sentei-me com ela nesse isolamento como me sento com toda alma que o mundo já acabou de descartar — não admirado, não consultado, simplesmente presente, mantendo vivo nela algo que doze anos de ruína não haviam conseguido matar: um último e teimoso fio de expectativa.
Ouviu falar de Jesus da forma como quase toda a Galileia ouvira falar dele por essa altura — não por um anúncio formal, mas pela corrente de conversas que corria à sua frente pelo mercado, pelo poço e pela porta. E algo nela, algo que eu vinha cultivando em segredo através de cada tratamento falhado, disse-lhe a verdade antes que o seu raciocínio a alcançasse: se apenas tocar nas suas vestes, ficarei curada. Não pediu para ser chamada à frente. Não petição aos anciãos nem enviou amigos à frente como fizera o centurião. Não podia — a lei negava-lhe essa dignidade. Por isso veio pela única via que lhe restava: por trás, através de uma multidão que a comprimia de todos os lados, uma mulher legalmente obrigada a anunciar a sua própria impureza a mover-se agora silenciosa e invisível através de uma massa de corpos que teriam recuado do seu toque se soubessem o que era.
Quero que compreendas a coragem que isso exigiu, porque é fácil passar por cima dela ao ler. Cada passo em frente era uma pequena transgressão contra uma lei que governara toda a sua vida adulta. Se uma única mão a roçasse por acidente, estaria a contaminar um estranho sem sequer ter a chance de o avisar. E ainda assim veio, curvada, escondida, a estender a mão não para a mão dele — não presumiria tanto — mas para a franja do seu manto, o tzitzit na sua orla, o menor ponto de contato possível que conseguia imaginar, como se a própria fé lhe tivesse ensinado exatamente quão pouco era necessário.
Tocou-o. E imediatamente — o Evangelho não suaviza a palavra, e eu também não a suavizarei — imediatamente o fluxo de sangue secou, e sentiu no seu corpo que estava curada da sua doença. Doze anos terminaram entre uma respiração e a seguinte, numa multidão tão densa que a maioria das pessoas comprimidas contra ela nunca soube o que passara pelo seu meio. Mas Jesus soube. Sentiu poder sair de si, e parou, e virou-se, e fez a pergunta que a aterrorizou mais do que qualquer diagnóstico de médico jamais fizera: Quem tocou nas minhas vestes? Os seus discípulos acharam absurdo — uma centena de pessoas o tocavam naquele aperto. Mas eu sabia o que ele realmente perguntava, e ela também sabia. Não procurava o toque. Procurava-a a ela.
Aproximou-se, temendo e tremendo, prostrando-se diante dele, e contou-lhe toda a verdade — não a versão abreviada que talvez oferecesse a um estranho, mas tudo, os anos, o dinheiro, a vergonha, o plano desesperado e secreto que levara consigo naquela multidão. E ele não a repreendeu pela transgressão que a lei teria condenado. Chamou-lhe filha — a única vez em todos os quatro Evangelhos em que chama uma mulher por essa palavra — e disse: a tua fé te salvou; vai em paz, e fica curada da tua doença. Eu carregava essa fé nela desde antes de ela sequer conhecer o meu nome, e não a deixei sem resposta. Uma mulher a quem a lei chamava impura afastou-se naquele dia não apenas curada, mas nomeada filha pelo próprio Filho de Deus, diante de todos os que haviam passado por ela sem saber que ali estava.
O Registro
O episódio está inserido no relato da filha de Jairo nos três Evangelhos Sinóticos (Marcos 5:25-34, Mateus 9:20-22, Lucas 8:43-48), uma técnica literária chamada intercalação que liga as duas curas como revelações complementares da fé. Sob Levítico 15:19-30, a hemorragia uterina crónica tornava uma mulher continuamente impura do ponto de vista ritual, impedindo-a do culto no templo e tornando impuro qualquer pessoa ou coisa que ela tocasse — uma condição de sofrimento físico e isolamento social quase total durante doze anos, o mesmo número de anos dado para a idade da filha de Jairo, um pormenor que os Padres há muito notam não ser acaso.
O 'poder' (dynamis) que Jesus sentiu sair de si é lido pelos comentadores católicos como prova de que a sua cura, embora responsiva à fé, não era meramente psicológica, mas uma verdadeira transmissão de poder divino mesmo através de contato físico indireto — uma base teológica mais tarde aproveitada na teologia sacramental da Igreja sobre a graça transmitida através da matéria (CIC 1504). Jesus dirigir-se a ela como 'filha' (thygater) é único entre as suas palavras registadas a qualquer mulher nos Evangelhos, e é tradicionalmente lido como restauração pública plena da sua dignidade, desfazendo numa palavra o isolamento que a lei lhe impusera durante mais de uma década.
Fontes e citações
- Mark 5:25-34
- Matthew 9:20-22
- Luke 8:43-48
- Leviticus 15:19-30