A Figueira Seca
Com fome no caminho de Betânia, Jesus amaldiçoa uma figueira carregada de folhas e vazia de frutos — uma parábola vivida que ele associa, nesse mesmo dia, à purificação do Templo. Pela manhã a árvore está seca até à raiz, e Jesus transforma o sinal de julgamento num ensinamento sobre o poder da fé, unida a um coração que perdoa, capaz de mover montanhas.
Segunda-feira daquela última semana. Recordo a normalidade daquela manhã antes de qualquer coisa nela se tornar sinal — fome, simples fome humana, do tipo que dei ao Verbo feito carne quando cobri Maria com a minha sombra para que Deus pudesse ser um corpo que se cansava e esvaziava como qualquer outro. Jesus tinha fome, caminhando de Betânia, e viu ao longe uma figueira em plena folhagem e foi até ela, como qualquer viajante vai em direção à promessa que uma árvore verde faz naquela terra: folha antes do fruto, geralmente, mas folha ao menos como rumor de um fruto por vir.
Não havia nada. Só folhas, a representar uma abundância que não possuíam. Marcos diz-nos, quase pedindo desculpa, que não era a época dos figos, e quero que te detenhas nesse pormenor em vez de o desculpar, porque eu estava lá e sei que não foi um descuido da parte do Verbo. Ele conhecia a estação tão bem quanto qualquer homem que percorrera aquela estrada em cada primavera da sua vida. Isto nunca foi sobre botânica. Era sobre uma árvore que se vestira com todos os sinais de fecundidade sem possuir nenhum, e já vi essa mesma representação em corações humanos mais vezes do que consigo suportar contar: folha sem fruto, religião sem amor, a cobertura exterior da devoção a esconder um vazio que a própria cobertura fora concebida para dissimular. 'Nunca mais coma alguém fruto de ti', disse ele. Não fúria. Uma palavra dita como se diz um diagnóstico, final porque é simplesmente verdadeira.
Nesse mesmo dia foi ao Templo e derrubou as mesas dos cambistas, e não fingirei que os dois atos foram separados aos meus olhos. Uma árvore coberta de folhas e vazia de figos. Um Templo coberto de comércio e vazio, naquela semana, da oração para que fora construído — 'a minha casa será chamada casa de oração para todas as nações', e tinham-na feito covil de ladrões. O julgamento sobre a figueira e o julgamento sobre o mau uso do Templo eram a mesma palavra, dita duas vezes, em duas chaves, no mesmo caminho.
Na manhã seguinte passaram de novo pela árvore e Pedro — adoro como Pedro diz sempre aquilo que todos os outros só pensam — exclamou: 'Rabi, olha! A figueira que amaldiçoaste secou.' Raízes e tudo. De um dia para o outro, uma coisa verde e frondosa tornara-se exatamente da cor do vazio que escondia.
E eis o que mais me comove naquela manhã, o que carreguei comigo através de cada século desde então: Jesus não se deteve no julgamento. Transformou a árvore seca numa porta para o exato oposto do desespero. 'Tende fé em Deus', disse-lhes. 'Quem disser a este monte: "Ergue-te e lança-te ao mar", e não duvidar no seu coração, mas crer que o que diz há de acontecer, assim lhe será feito.' Sou eu quem torna possível esse tipo de oração, não a manipulação de Deus por um desejo suficientemente forte, que é superstição e não fé, mas a confiança profunda e assente de um coração de tal modo entregue à vontade do Pai que o seu pedir e o dar do Pai se movem como uma só corrente. 'Tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebestes, e assim vos será feito.'
E então, antes que a lição pudesse ser confundida com triunfalismo, acrescentou a única condição que impede a fé de se azedar em orgulho: 'E quando estiverdes de pé a orar, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que também o vosso Pai que está nos céus vos perdoe as vossas ofensas.' A árvore que não deu fruto é julgada. O coração que não perdoa também não dá fruto, e nunca encontrei forma de fazer a oração florescer em solo envenenado por um rancor não perdoado. A fé move montanhas. Só a misericórdia mantém o solo fértil o suficiente para a fé crescer nele.
O Registro
O episódio está registado em Marcos 11:12-25, com um paralelo condensado em Mateus 21:18-22, situado na segunda-feira da Semana Santa, entre a entrada de Jesus em Jerusalém e a purificação do Templo. Marcos emprega a sua característica estrutura intercalada, ou 'em sanduíche', enquadrando a purificação do Templo entre a maldição e o secar da figueira, convidando o leitor a interpretar os dois atos como um único sinal profético contra a religião infrutífera e autossatisfeita. A figueira serviu longamente na literatura profética de Israel como símbolo da fecundidade ou da infidelidade da nação (Jeremias 8:13; Oseias 9:10; Miqueias 7:1). O ditado sobre mover montanhas ecoa Zacarias 4:7 e era proverbial no ensino judaico para o impossível tornado possível pela fé.
Marcos 11:25, ligando a oração eficaz ao perdão dos outros, antecipa a petição do Pai-Nosso de 'perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido'. O Catecismo cita este ensinamento diretamente no seu tratamento da oração de fé: 'tal é o poder da oração e da fé que não duvida' (CIC 2610, citando Marcos 11:24). O comentário católico lê o julgamento da figueira não como capricho divino contra uma árvore que não podia dar fruto fora de estação, mas como uma parábola encenada que expõe uma religiosidade infrutífera, à qual Cristo, no mesmo fôlego, chama os seus seguidores a ir além, rumo a uma fé inseparável da misericórdia.
Fontes e citações
- Mark 11:12-25
- Matthew 21:18-22
- CCC 2610