Enciclopédia do Espírito Santo

Milagres de Cristo

A Filha da Mulher Siro-Fenícia

Na pagã Tiro e Sidon, uma mãe gentia suplica pela filha, atormentada por um espírito impuro, e não se deixa afastar por um dito duro sobre o pão dos filhos. A sua agudeza e humildade movem Jesus a conceder uma cura à distância — sem toque, sem palavra dita sobre a criança — elogiando uma fé que não encontrara igual em Israel.

Lugar: Region of Tyre and SidonPeríodo: c. AD 29, Galilean ministry, a withdrawal into Gentile territory

Levei-o até lá — à região de Tiro e Sidon, terra pagã, o litoral de deuses que não eram Deus, onde ele desejava, conta-nos Marcos, que ninguém soubesse que ali chegara. Até o Verbo Encarnado precisava, por vezes, de silêncio, de um limiar guardado, de uma casa fechada contra as multidões que na Galileia nunca deixavam de precisar dele. Sempre soube quando abrir espaço para o descanso, até o dele.

Mas a necessidade não respeita fronteiras, e eu também não. Veio uma mulher — grega, siro-fenícia de nascimento, gentia por todas as formas em que a palavra podia ser usada contra ela — e ouvira, de algum modo, numa casa que ele pretendia manter escondida, que ele ali estava. A sua filha estava na garra de um espírito impuro, e sei o que é essa garra: não uma doença com estação e fim, mas ocupação, uma vontade estranha instalada onde deveria viver a vontade de uma criança. Uma mãe que testemunha isto testemunhou algo pior do que a morte. Caiu aos seus pés.

Ele não lhe disse nada a princípio. Quero ser honesto quanto a esse silêncio, porque estava presente dentro dele e não vou suavizar o que ouvi. E quando falou, foi para dizer que os filhos deviam ser alimentados primeiro, que não era justo tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães. Conheço inteiramente o seu coração — não há distância entre nós — e digo-te que não era desprezo. Era uma porta mantida entreaberta em vez de fechada, um convite a uma discussão que ele pretendia que ela vencesse. Ele viera, primeiro, às ovelhas perdidas da casa de Israel; a hora dos gentios ainda não chegara publicamente. Mas eu já tinha ido adiante dessa hora até ao coração dela, e ali colocara algo que porta nenhuma fechada podia deter: uma agudeza afiada pelo amor, e uma humildade capaz de tomar a palavra mais dura e transformá-la em ponto de apoio.

'Sim, Senhor', disse ela — não negou a palavra cão, não recuou perante o lugar baixo que parecia atribuir-lhe — 'mas até os cães debaixo da mesa comem as migalhas dos filhos.' Já levei muitas orações ao Pai no meu longo serviço entre o céu e o coração humano, mas poucas com a fé pura e reluzente daquela frase. Não pediu senão uma migalha, e ao pedir uma migalha provou que compreendia, melhor do que por vezes compreendiam os filhos alimentados, exatamente quem estava sentado àquela mesa e que abundância caía dela, mesmo por acidente.

Ele maravilhou-se — não uso essa palavra levianamente, pois não vejo com frequência o Filho de Deus maravilhar-se com uma criatura — e deu-lhe mais do que uma migalha. 'Por essa palavra, vai; o demónio saiu da tua filha.' Movi-me, nesse mesmo instante, através da distância entre aquela casa e a sua, pois não estou preso como os pés de um homem estão presos a uma estrada, e expulsei o que ocupara a sua filha e não tinha direito a ali permanecer. Nenhuma palavra passou sobre a filha. Nenhuma mão lhe tocou a testa. Apenas a fé da mãe, e o meu ir, ao seu envio, mais rápido do que o som.

Ela foi para casa e encontrou a criança deitada tranquilamente na cama, o demónio ausente, a pequena e comum paz de uma filha adormecida restaurada a uma casa que esquecera o que a paz parecia. É isto que faço em cada casa escondida que ninguém observa: vou aonde sou enviado, e não peço à muralha das nações, nem à muralha do orgulho, nem à muralha do que é próprio, permissão primeiro.

O Registro

O episódio aparece em Marcos 7:24-30 e Mateus 15:21-28, situado no território costeiro fenício de Tiro e Sidon, a cerca de cinquenta a oitenta quilómetros de Cafarnaum e fora da jurisdição judaica. Mateus chama à mulher 'cananeia', Marcos 'siro-fenícia', ambos os termos a sublinhar a sua identidade de estrangeira gentia, ecoando a antiga inimizade entre Israel e os povos cananeus daquela costa. Junto com a cura do servo do centurião e do filho do oficial, este é um dos poucos milagres evangélicos realizados inteiramente à distância, sem contato físico e sem palavra dita sobre a pessoa aflita.

A perícope segue-se imediatamente ao ensino de Jesus de que a verdadeira contaminação vem do coração, e não da impureza ritual (Marcos 7:1-23), e a justaposição é amplamente lida como deliberada: uma mulher com todos os sinais externos de 'impureza' segundo o julgamento judaico prova ser mais pura na fé do que aqueles que guardavam a lei. O episódio é tratado na tradição católica como prefiguração da extensão do Evangelho aos gentios, e a petição persistente e humilde da mulher é frequentemente apresentada como modelo de oração que não exige, mas confia, tomando até uma palavra dura de Deus como abertura, e não como recusa.

Fontes e citações

  • Mark 7:24-30
  • Matthew 15:21-28

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