A Cura dos Dez Leprosos
Dez leprosos clamam da margem de uma aldeia entre a Samaria e a Galileia, e Jesus envia-os, ainda não curados, para os sacerdotes que certificarão uma purificação que ainda não aconteceu. Todos os dez são curados no caminho; só um, um samaritano desprezado, volta para agradecer — e recebe mais do que os outros nove.
Dez homens estavam onde a lei os obrigava a estar — longe, à margem de uma aldeia cujo nome Lucas nem sequer se dá ao trabalho de mencionar, porque não importava qual fosse a aldeia, apenas que se situava na fronteira entre a Samaria e a Galileia, entre os que adoravam corretamente e os que os justos tinham decidido não olhar. Nove eram judeus. Um era samaritano. A lepra fizera o que nada mais conseguira: tornara irmãos homens que de outro modo não teriam partilhado um poço.
Sei o que é ser mantido à distância. Já fui apagado, entristecido, resistido, mantido à margem de corações que preferem gerir a sua própria impureza em privado a deixar-me chegar perto o suficiente para a tocar. Estes dez não tinham escolha na questão — a própria lei os mantinha ali, ao alcance de um grito, porque os seus corpos carregavam uma corrupção que toda a comunidade temia como uma maldição. 'Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!' Dez vozes ao mesmo tempo, uma só oração, a mais antiga que existe.
Ele não os tocou. Nem sequer caminhou em direção a eles. Apenas disse: 'Ide, mostrai-vos aos sacerdotes' — a própria instrução que a Lei de Moisés dava a homens já curados, enviando-os em direção à prova de uma cura que ainda não acontecera. Quero que sintas o que senti a mover-me através daquela multidão de dez naquele instante: era um recado de pura fé. Pediu-lhes que caminhassem em direção a um veredito que ainda não tinham fundamento para esperar. E movi-me no caminhar. Não antes dele. Nele. 'Enquanto iam, foram purificados' — a frase mais simples de Lucas, e uma das mais verdadeiras já escritas sobre a forma como mais frequentemente trabalho: silenciosamente, no meio da obediência, sem ser anunciado por qualquer clarão que permitisse a um homem reclamar o crédito de ter notado o momento exato.
Nove continuaram a andar. Não os condeno por isso — o sacerdote era para onde a Lei os enviava, e ir era em si um ato de fé, e não desprezo a obediência mesmo quando ultrapassa a gratidão. Mas um deles, o samaritano, aquele que, pela lógica dos nove, menos direito tinha a qualquer daquilo, parou no caminho. Sentiu a carne inteira, sem cicatriz, e algo nele compreendeu que o recado ao sacerdote podia esperar, que havia uma dívida mais antiga do que a exigência da Lei, e voltou-se.
Voltou aos gritos — Lucas usa a mesma palavra para louvor que enche os Salmos — e caiu com o rosto em terra aos pés do homem que o curara a trinta passos de distância, sem lhe tocar com uma mão. Um estrangeiro, a adorar. Repousei nesse momento como repouso onde quer que a gratidão se abra em adoração, o que é mais raro, confesso, do que gostaria que fosse. Jesus fez a pergunta que já fiz em dez mil silêncios desde então, ao ver bênçãos partirem sem serem notadas: 'Não foram purificados os dez? E os outros nove, onde estão? Não se achou quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?'
Depois disse ao que voltara: 'Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.' Os nove receberam de volta a sua carne. Este recebeu algo mais — a palavra que Jesus usou significa salvo, feito inteiro, não apenas purificado. Dez foram curados da lepra. Um foi curado da lepra mais profunda, o isolamento que faz um homem resgatado seguir em frente em vez de se voltar para dizer obrigado. Nunca deixei de esperar, desde aquele caminho, pelos que voltam.
O Registro
O episódio está registado apenas em Lucas 17:11-19, situado 'a caminho de Jerusalém, passando entre a Samaria e a Galileia', dentro da extensa narrativa de viagem de Lucas. Todos os dez leprosos são instruídos, segundo Levítico 13-14, a mostrarem-se a um sacerdote para certificação da purificação, o pré-requisito legal para o regresso à vida comunitária. Lucas, escrevendo para um público em grande parte gentio, sublinha deliberadamente que aquele que volta é samaritano, um 'allogenes' ou estrangeiro (17:18), um pormenor que reconfigura a história como uma repreensão à presunção étnica e religiosa, e como modelo de gratidão recorrente ao longo do seu Evangelho, ao lado das parábolas do Filho Pródigo e do fariseu e do publicano.
O verbo grego que Jesus usa na sua palavra final ao samaritano, 'sesōken' ('salvou-te' ou 'fez-te inteiro'), é a mesma palavra usada noutros pontos do Novo Testamento para a salvação espiritual, distinguindo a cura física concedida a todos os dez da restauração mais plena concedida ao que voltou em fé e ação de graças. A liturgia católica designa este Evangelho para o vigésimo oitavo domingo do Tempo Comum (Ano C), e é frequentemente citado na catequese sobre a Eucaristia, cujo próprio nome significa ação de graças, como o padrão de uma resposta completa à graça: cura recebida, e depois devolvida a Deus em louvor.
Fontes e citações
- Luke 17:11-19