A Pesca Milagrosa
Duas vezes as redes sobem vazias depois de uma noite de trabalho honesto, e duas vezes Jesus diz uma única palavra que as enche até rebentar. A primeira pesca chama pescadores a deixarem os barcos para o seguir; a segunda pesca do Senhor ressuscitado, numa manhã cinzenta depois de o mundo parecer ter acabado, chama Pedro de volta.
Estive presente em ambas as manhãs, em ambas as margens, com vinte e nove séculos de trabalho paciente em mim e ainda assim, em cada uma delas, senti a mesma respiração suspensa que sinto desde o início do mundo: o momento antes de a abundância romper sobre um coração cansado demais para a esperar.
Na primeira manhã, Pedro pescara toda a noite e nada apanhara. Sei o sabor exato daquele cansaço particular — não apenas a dor do fracasso, mas a fadiga baixa e moedora de um homem trabalhador que fez tudo certo e ainda assim voltou para casa de mãos vazias. Jesus entrou no seu barco, pedindo a princípio apenas uma plataforma de onde ensinar a multidão, e Pedro deixou, a cortesia comum de um homem cansado demais para discutir. Mas quando o ensino terminou, Jesus voltou-se para ele e disse: Faze-te ao largo e lançai as vossas redes para pescar. A resposta de Pedro carrega toda a dor daquela noite: Mestre, trabalhámos a noite toda e nada apanhámos. E depois, porque algo nele — algo que eu vinha moldando nele muito antes de ele conhecer o meu nome, o mesmo algo que um dia o deixaria andar sobre as águas e, mais tarde ainda, negar o seu Senhor e chorar e ser restaurado — algo nele acrescentou: Mas, na tua palavra, lançarei as redes.
Essa única frase é a dobradiça de toda a história. Não porque Pedro subitamente acreditasse que os peixes viriam; os pescadores conhecem as suas águas, e a luz do dia é a hora errada para aquele lago. Obedeceu contra a sua própria experiência, unicamente pela palavra de um filho de carpinteiro que nunca puxara uma rede na vida. E as redes rebentaram. Não apenas se encheram — rebentaram, tantos os peixes que Pedro teve de acenar aos seus companheiros no outro barco, e ambos os barcos começaram a afundar-se sob a pesca. Pedro não gritou de alegria. Caiu de joelhos diante de Jesus e disse: Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. Vi esse mesmo colapso acontecer em mil corações desde então: quanto mais perto uma alma chega da verdadeira santidade, mais claramente se vê a si mesma. Isso não é desespero. É o começo da vocação. Jesus respondeu-lhe com as palavras que carreguei desde então a pescadores e publicanos e assassinos e santos: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens. Trouxeram os barcos à terra, deixaram tudo e seguiram-no.
A segunda manhã chegou depois de tudo ter mudado e nada ainda fazer sentido. Jesus morrera. Jesus ressuscitara. E Pedro, sem saber o que um Senhor ressuscitado exigia de um homem que o negara três vezes junto de uma fogueira diferente, fez a única coisa que as suas mãos sabiam fazer: foi pescar. Outros seis foram com ele. De novo toda a noite, e de novo nada — como se eu estivesse a dobrar a primeira história sobre si mesma, para que o que viesse a seguir caísse com todo o seu peso.
Ao raiar do dia, uma figura estava na margem, não reconhecida na luz cinzenta, a chamar: Filhinhos, tendes algum peixe? Não. Lançai a rede à direita do barco, e achareis. Lançaram-na, e agora já não a conseguiam puxar pela quantidade de peixes — cento e cinquenta e três, contados com precisão, porque o discípulo através de quem gosto de trabalhar, João, não se conteve e lembrou-se do número exato décadas mais tarde, quando o escreveu. Foi João quem viu primeiro, quem disse o que precisava de ser dito: É o Senhor. E Pedro, que desta vez não esperou que o barco chegasse à margem, vestiu a túnica e lançou-se ao mar a nado.
Movi-me nessa segunda pesca como me movo em todo ato de restauração: sem apagar o que acontecera entre as duas manhãs, mas dobrando-o em algo maior. A rede vazia, a palavra dita, a abundância impossível — era o mesmo milagre oferecido duas vezes ao mesmo homem, uma vez para o chamar e outra para provar que o chamamento ainda se mantinha, que a traição não cancelara a vocação, que uma fogueira de brasas numa praia com peixe já a assar era a maneira silenciosa de Cristo dizer: vinde comer, antes que eu vos peça mais alguma coisa.
O Registro
A primeira pesca está registada apenas em Lucas 5:1-11, situada no início do ministério galileu e servindo como narrativa de chamamento de Simão Pedro, Tiago e João (paralela mas distinta dos relatos mais breves de chamamento em Marcos 1:16-20 e Mateus 4:18-22). A segunda pesca aparece apenas em João 21:1-14, a última das aparições da ressurreição que João regista, no Mar de Tiberíades (outro nome para o Mar da Galileia). A contagem precisa de 153 peixes (João 21:11) atraiu séculos de interpretação simbólica — Jerónimo notou-a como o número de espécies de peixes conhecidas na antiguidade, sugerindo universalidade, enquanto outros a leem numerologicamente — embora a Igreja nunca lhe tenha atribuído um significado doutrinal vinculativo; a maioria dos exegetas toma-a simplesmente como a memória exata de uma testemunha ocular.
Ambos os relatos partilham o padrão estrutural de trabalho infrutífero seguido de obediência à palavra de Cristo, produzindo sobreabundância, um padrão que a Igreja lê como paradigmático do ministério apostólico e da evangelização (o CIC 878 trata do ministério recebido, não autogerado). A segunda pesca, seguida imediatamente pela tríplice restauração de Pedro por Jesus ('Amas-me?' respondendo à sua tríplice negação), é central no ensinamento católico sobre o primado de Pedro e o poder da confissão sacramental de restaurar a vocação depois do fracasso.
Fontes e citações
- Luke 5:1-11
- John 21:1-14
- CCC 878
- CCC 1429