Enciclopédia do Espírito Santo

Santos e Taumaturgos

Francisco de Assis e as Chagas de La Verna

Em setembro de 1224, no Monte La Verna, nos Apeninos toscanos, São Francisco de Assis recebeu os estigmas — as chagas da Paixão de Cristo impressas na sua própria carne — durante um jejum de quarenta dias, o primeiro caso documentado de estigmas na história da Igreja. Morreu dois anos depois e foi canonizado dentro de dois anos após a sua morte, uma das canonizações mais rápidas de que há registro.

Lugar: Mount La Verna, Casentino, Tuscany, ItalyPeríodo: September 14, 1224 (vision); died October 3, 1226

Eu já havia descido sobre ele uma vez, na pequena igreja de São Damião, quando o crucifixo falou e ele ouviu, através da madeira e da tinta, a voz que julgava pertencer apenas aos sacerdotes. Esse foi o começo. Mas no outono de 1224, sobre a rocha nua de La Verna, encontrei em Francisco uma alma tão esvaziada de si mesma que já não restava nada nela para Me resistir.

Havia subido o monte com alguns irmãos para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, sem levar consigo nada além de um pedido que mal ousava pronunciar: sentir, no próprio corpo, o que o seu Senhor sentira na madeira do Calvário, e sentir, no próprio coração, o amor que tornara tal sofrimento digno de ser suportado. Eu já ouvira orações mais corajosas, e outras mais humildes, mas raramente ouvira uma tão indivisa. Ele não pediu para ser poupado de nada. Pediu apenas para ser conformado.

Na manhã de 14 de setembro, vim a ele como vim a Isaías, como fogo que não permanece do lado de fora daquele que visita. Ele viu o que o seu irmão Leão, adormecido junto à fenda da rocha, não viu: um serafim de seis asas, em chamas, trazendo entre as asas a imagem de um homem crucificado. Deixei que ele sentisse, naquele instante, ao mesmo tempo o êxtase da visão e a dor da Paixão — alegria e tristeza fundidas num único golpe, porque é isso que o amor custa quando não é diluído. Quando a visão se retirou no fulgor do céu, deixou atrás de si o que nenhuma visão antes havia deixado: chagas. Cabeças negras de pregos na carne das mãos e dos pés, dobradas como se tivessem sido cravadas e rebitadas do outro lado, e uma ferida no lado direito, como se uma lança a tivesse aberto, que continuaria a verter sangue até o dia em que ele morreu, dois anos depois.

Não dei a Francisco essas chagas para fazer dele um espetáculo. Ele as escondeu pelo resto da vida, envolvendo as mãos nas mangas, calçando meias mesmo no verão para cobrir os pés, permitindo apenas ao Irmão Leão e ao Irmão Rufino trocar os curativos e ver o que Eu havia feito nele. Aquele que suplicara à Senhora Pobreza que o despojasse de tudo, incluindo, anos antes, o próprio manto do seu pai na praça de Assis, recebeu por fim a única posse de que não podia livrar-se: as marcas de Cristo trazidas no próprio corpo, a que o Apóstolo Paulo chamou estigmas, e que nenhum santo antes de Francisco jamais havia carregado.

Não estive distante dele nisso. Sou o amor que passa entre o Pai e o Filho, e quando repouso sobre um homem não repouso como uma ideia — repouso como fogo, como a pomba que fendeu o céu sobre o Jordão, como o vento que encheu uma sala trancada em Jerusalém. Em La Verna, repousei sobre Francisco tão completamente que o seu próprio corpo se tornou uma página onde o Evangelho podia ser lido pelo tato. Tomás de Celano, que escreveu a sua primeira biografia dentro de dois anos após a sua morte, disse que os irmãos que o prepararam para o sepultamento não precisaram que lhes dissessem o que tinham visto — bastava-lhes olhar.

Morreu na noite de 3 de outubro de 1226, na pequena cabana junto à Porciúncula, tendo pedido para ser deitado nu sobre a terra nua, como vivera: pobre. Vim a ele discreto, e deixei-o marcado, e as marcas não desapareceram. Não desaparecem em ninguém que Eu verdadeiramente visito. Apenas as torno visíveis algumas vezes, para que aqueles que ainda não creem em Mim possam, ao menos uma vez, crer no que fiz.

O Registro

Francisco de Assis (nascido Giovanni di Pietro di Bernardone, c. 1181, Assis, Úmbria) fundou a Ordem dos Frades Menores por volta de 1209, após renunciar à sua herança e abraçar a pobreza radical. Em setembro de 1224, ao fazer um jejum de quarenta dias em preparação para a Festa de São Miguel no Monte La Verna (na região do Casentino, na Toscana), Francisco teve uma visão, tradicionalmente datada de 14 de setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz, após a qual se constatou que trazia chagas semelhantes às de Cristo crucificado nas mãos, nos pés e no lado direito. Este é o mais antigo caso documentado de estigmas na história cristã.

A principal testemunha antiga das chagas físicas foi o Irmão Leão, confessor e companheiro de Francisco, que deixou uma nota manuscrita (preservada como a "Chartula" no Sacro Convento de Assis) e que, juntamente com o Irmão Rufino e o Irmão Ângelo, cuidou de Francisco durante a sua doença final. A "Vita Prima" de Tomás de Celano (Primeira Vida de São Francisco, 1228), encomendada pelo Papa Gregório IX, e a posterior "Legenda Maior" de Boaventura (1263) descrevem ambas, em detalhe, a visão seráfica e as chagas resultantes.

Francisco morreu em 3 de outubro de 1226, na Porciúncula, perto de Assis. Foi canonizado em 16 de julho de 1228 pelo Papa Gregório IX — menos de dois anos após a sua morte, uma das canonizações mais rápidas da história da Igreja. O Papa Bento XIV, no século XVIII, examinou formalmente as evidências históricas dos estigmas de La Verna como parte do seu estudo mais amplo sobre as causas de canonização, e afirmou a sua autenticidade dentro da tradição da Igreja. Francisco é padroeiro da Itália, da ecologia (declarado pelo Papa João Paulo II em 1979) e dos animais. A sua festa é celebrada em 4 de outubro.

Fontes e citações

  • Thomas of Celano, 'Vita Prima Sancti Francisci' (1228)
  • Bonaventure, 'Legenda Maior' (1263)
  • The 'Chartula' of Brother Leo, Sacro Convento, Assisi
  • 'I Fioretti di San Francesco'

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