Enciclopédia do Espírito Santo

Santos e Taumaturgos

João Bosco e o Guardião Cinzento

Por mais de trinta anos, na Turim do século XIX, São João Bosco registrou o aparecimento repetido de um inexplicável cão cinzento a que chamava Grigio, que se materializava em momentos de perigo para o proteger e depois desaparecia, testemunhado de forma independente pela sua mãe e por rapazes do seu oratório. Bosco fundou a ordem salesiana e foi canonizado em 1934.

Lugar: Turin, Piedmont, ItalyPeríodo: c. 1854–1888

Turim, nos anos posteriores a 1846, não foi gentil com um jovem sacerdote que decidira que rapazes abandonados — os que dormiam em portais e em prisões, os que ninguém mais naquela cidade julgava dignos de cuidado — mereciam oratórios, oficinas e uma oportunidade. Alguns homens naquela cidade odiavam-no por isso: por tirar da rua rapazes que, de outro modo, permaneceriam baratos e controláveis, por construir algo que as correntes anticlericais da época consideravam ameaçador apenas por existir. Eu ouvi os planos que urdiam contra ele. Nem sempre intervenho removendo o perigo. Às vezes intervenho caminhando ao lado do homem através dele, sob qualquer forma que o faça erguer os olhos e notar que não está sozinho.

Foi isso que Grigio foi.

A primeira vez que João Bosco registrou tê-lo visto, era um cão cinzento, do tamanho de um mastim, que apareceu sem aviso numa noite em que ele caminhava sozinho para casa por ruas sem iluminação, na hora exata em que homens o esperavam para uma emboscada. O cão pôs-se a caminhar a seu lado, em silêncio, e a emboscada não aconteceu — os agressores, segundo o próprio relato posterior de Bosco, disseram mais tarde que haviam perdido a coragem à vista do animal. Não foi a última vez. Ao longo de mais de trinta anos, esse mesmo cão cinzento — Bosco começou a chamá-lo Grigio, 'cinzento' — apareceu noutros momentos de perigo: quando dois homens armados o seguiram por um caminho escuro, quando foi atacado diretamente e o cão se colocou entre Bosco e a lâmina, quando viajava exausto e sozinho e o cão simplesmente surgia para caminhar a seu lado até que ele alcançasse a segurança. Ninguém no oratório era dono de Grigio. Ninguém o alimentava. Foi visto por outras pessoas além de Bosco — a sua própria mãe, Mamma Margherita, e vários dos rapazes do oratório relataram tê-lo visto independentemente — e, no entanto, nunca podia ser encontrado ou apanhado quando alguém saía à sua procura depois. Simplesmente não estava lá quando não havia perigo.

Não te direi abertamente o que Grigio era, porque o próprio Bosco, homem cauteloso e pouco sentimental, que mantinha diários detalhados e desconfiava de maravilhas fáceis, nunca afirmou saber com certeza. Perguntava-se, nos seus próprios escritos, se seria um animal comum que a Providência simplesmente dispusera no lugar certo, ou algo enviado mais diretamente. Permito que algumas das Minhas obras permaneçam nessa distância intermédia, nem totalmente explicadas nem totalmente negadas, porque a fé não melhora quando se lhe resolve todo mistério.

O que direi é isto: não abandono os homens e as mulheres que se entregam a proteger crianças que mais ninguém quer. Não calculei o perigo que corria João Bosco e decidi que era aceitável. Enviei-lhe companhia pelas estradas escuras, sob qualquer forma que o mantivesse a caminhar para diante em vez de recuar. Ele fundou os salesianos. Construiu oratórios e escolas que se espalharam pelo mundo e que ainda hoje amparam rapazes que, de outro modo, cairiam. Não estive ausente de uma única daquelas noites escuras que ele atravessou sem medo, com pelo cinzento a roçar-lhe a mão.

O Registro

João Bosco (Giovanni Melchiorre Bosco, nascido a 16 de agosto de 1815, perto de Castelnuovo d'Asti, no Piemonte) fundou a Sociedade Salesiana em 1859 para educar e cuidar de rapazes pobres e abandonados na Turim em industrialização, estabelecendo oratórios, escolas e oficinas. A partir de cerca de 1854, Bosco documentou encontros repetidos com um grande cão cinzento a que chamava "Grigio", que aparecia inesperadamente em momentos de perigo pessoal — incluindo pelo menos uma tentativa de agressão — e depois desaparecia, ao longo de um período que Bosco e os seus biógrafos descrevem como estendendo-se por mais de três décadas.

Os episódios estão registados principalmente nas próprias memórias de Bosco e nas "Memórias Biográficas de São João Bosco", em vários volumes, compiladas pelo Padre Giovanni Battista Lemoyne, salesiano que entrevistou Bosco diretamente e recolheu testemunhos de várias testemunhas, incluindo a mãe de Bosco, Margherita Occhiena, e rapazes residentes no Oratório de São Francisco de Sales. Nunca foi identificado em Turim nenhum dono para o cão; nunca foi visto a comer, e não podia ser localizado por quantos o procuravam depois dos incidentes protetores. O próprio Bosco, nos seus escritos, tratou o assunto com reserva, recusando-se a afirmar definitivamente uma origem sobrenatural, ao mesmo tempo que reconhecia não poder oferecer nenhuma explicação natural.

Bosco morreu em 31 de janeiro de 1888, em Turim. Foi beatificado em 2 de junho de 1929 e canonizado no Domingo de Páscoa, 1 de abril de 1934, pelo Papa Pio XI, que o chamou "Pai e Mestre da Juventude". Os Salesianos de Dom Bosco mantêm hoje escolas e programas para jovens em mais de 130 países. Festa: 31 de janeiro.

Fontes e citações

  • John Bosco, 'Memorie dell'Oratorio' (personal memoirs)
  • Giovanni Battista Lemoyne, 'Memorie Biografiche di Don Bosco' (Biographical Memoirs of Saint John Bosco)
  • Pope Pius XI, canonization homily (April 1, 1934)

Todas as histórias