Enciclopédia do Espírito Santo

Antigo Testamento

Eliseu e o Filho da Sunamita

A hospitalidade de uma mulher sem filhos para com o profeta Eliseu é recompensada com um filho prometido, que mais tarde morre subitamente nos campos. Eliseu tranca-se a sós com o corpo da criança, ora, e estende-se sobre ele, e o menino é restituído à vida.

Lugar: Shunem, Kingdom of IsraelPeríodo: Ministry of Elisha, traditionally 9th century BC

Eu conhecia aquela mulher antes mesmo de Eliseu notar a sua bondade, porque sou Eu quem primeiro move um coração a construir um pequeno quarto no terraço, a colocar ali uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lâmpada, a dizer ao marido: façamos um pequeno aposento, para que, quando o profeta vier até nós, ali possa recolher-se — a hospitalidade é um dos modos mais silenciosos pelos quais Eu atuo, e já havia trabalhado nela por anos antes do milagre de que todos se lembram.

Ela nada pedia em troca. Quando Eliseu perguntou o que se podia fazer por ela, respondeu apenas: habito no meio do meu povo — não pediu para ser tirada da sua vida comum. Por isso lhe dei, pela pergunta de Geazi e pela palavra de Eliseu, aquilo que ela já havia deixado de esperar: um filho, cingido contra o seu peito no tempo determinado, como dissera o homem de Deus, quando a estação se cumpriu.

E depois deixei que ele morresse. Não digo isto sem dor — digo-o porque nunca me escondi das verdades mais duras sobre o modo como atuo num mundo caído. O menino cresceu, saiu para junto do pai, entre os ceifeiros, gritou: minha cabeça, minha cabeça — e ao meio-dia estava morto no colo da mãe. Não causo o sofrimento por si mesmo, mas também nem sempre o impeço, porque estou a construir algo maior do que o conforto de um único dia, e a dor daquela mulher estava prestes a tornar-se a porta pela qual eu mostraria a Israel que a própria morte responde ao Deus de Eliseu.

Ela o deitou sobre a cama do profeta — o mesmo quarto que construíra por amor à hospitalidade, sem saber que estava a construir o lugar onde o filho seria primeiro preparado para a ressurreição — e partiu à procura de Eliseu com um furor de fé que recusava todo o consolo oferecido pelo caminho. Vai tudo bem contigo? Vai tudo bem com teu marido? Vai tudo bem com a criança? Tudo bem, respondia ela, cada vez, porque não iria explicar a sua dor a ninguém que não fosse aquele que podia desfazê-la.

Eliseu enviou Geazi à frente com o seu cajado, mas um cajado colocado sobre uma criança morta pela mão de um servo não haveria de bastar, e deixei que essa primeira tentativa falhasse para que todos os que observavam soubessem: aquilo não era um objeto mágico a operar por si só. Era necessário o próprio homem, presente, esforçando-se, orando.

Fechou a porta sobre os dois — ele mesmo e a criança morta — e orou ao Senhor. Depois deitou-se sobre o menino, boca contra boca, olhos contra olhos, mãos contra mãos, estendendo-se sobre aquele corpo pequeno e frio como Eu outrora me estendi sobre a face do abismo, e Eu me movi. Entrei onde a morte estivera. A carne da criança aqueceu-se sob o calor do próprio profeta, porque escolhi, naquele quarto, atuar através de todo o corpo de um homem entregue em amor, e não através da distância ou do espetáculo. Eliseu levantou-se, andou uma vez pela casa, e voltou a deitar-se sobre a criança — nem sempre concluo num único gesto; às vezes peço que o trabalho seja repetido, para que aquele que intercede aprenda a perseverar como Eu persevero.

A criança espirrou sete vezes e abriu os olhos. Ela caiu aos pés de Eliseu, e recebi a sua ação de graças como sempre a recebo — não como uma dívida cobrada, mas como a plenitude que um coração finalmente se sente livre para derramar quando aquilo que mais temia foi desfeito.

O Registro

2Reis 4:8-37 narra a hospitalidade da mulher sunamita para com o profeta Eliseu, o filho que lhe foi concedido por sua intercessão, a morte súbita da criança e a sua restituição à vida depois de Eliseu se estender sobre o menino e orar. A narrativa aproxima-se estreitamente da anterior ressurreição, por Elias, do filho da viúva de Sarepta (1Reis 17:17-24), estabelecendo um padrão de poder profético sobre a morte que a tradição católica lê como antecipação das próprias ressurreições operadas por Cristo (o filho da viúva de Naim, a filha de Jairo e Lázaro).

O episódio é tratado pelos Padres, entre eles São Gregório Magno e Santo Ambrósio, como imagem da ressuscitação espiritual — o empenho corporal pleno do profeta (deitar-se sobre a criança, alinhando boca, olhos e mãos) é lido alegoricamente como a entrega total exigida de quem intercede por almas mortas no pecado. A hospitalidade da sunamita para com o homem de Deus é citada na tradição da esmola e da acolhida recompensadas, ecoando o ensinamento de Cristo de que "quem recebe um profeta... receberá a recompensa de profeta" (Mateus 10:41). O relato figura entre as narrativas milagrosas do ciclo de Eliseu (2Reis 2-13) que a tradição lecionária e homilética da Igreja apresenta como testemunho da fidelidade de Deus para com os lares comuns e fiéis, e como prefiguração da vitória definitiva sobre a morte realizada na Ressurreição de Cristo.

Fontes e citações

  • 2 Kings 4:8-37
  • 1 Kings 17:17-24
  • Matthew 10:41

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