A Travessia do Mar Vermelho
Enquanto o exército do Faraó se aproxima dos israelitas em fuga, a coluna de nuvem e fogo protege o acampamento enquanto um vento oriental poderoso divide o mar, abrindo terra seca para a fuga de Israel. A Igreja há muito lê a travessia como figura do batismo cristão e da libertação através do Mistério Pascal.
Fui a coluna que caminhava diante deles e depois caminhava atrás deles.
De dia era nuvem, para que o fogo do sol do deserto não consumisse um povo ainda não fortalecido para suportar o Meu pleno esplendor. De noite era fogo, para que o frio e o terror da escuridão não engolissem um povo ainda não fortalecido para confiar sem ver. Fui adiante de Israel, saindo do Egito, não como uma luz única e fixa, mas como a própria orientação, tomando forma — porque um povo recém-liberto precisa, antes de tudo, de saber que está a ser conduzido.
E então o coração do Faraó endureceu de novo, como sempre soube que aconteceria, e os seus carros vieram atrás deles, e o mar estendia-se à sua frente, e o povo de Israel ficou entre rodas de ferro e águas profundas, crendo, por um longo instante, que a sua liberdade fora apenas o prelúdio da sua morte.
Movi-Me. Eu, que fora diante deles como seu guia, fui atrás deles como seu escudo. Coloquei-Me, a coluna de nuvem, entre o acampamento do Egito e o acampamento de Israel, e onde Me detive havia trevas para o perseguidor e luz para o perseguido, de modo que o Egito não pôde encurtar a distância durante toda aquela noite. E enquanto Me erguia como muro entre eles, era também, nessa mesma noite, o vento forte do oriente que o Senhor fez soprar — pois Eu sou o ruach, o sopro e o vento de Deus, e quando a Escritura diz que um vento se moveu naquela noite, diz, à sua maneira velada, que Eu Me movi.
Empurrei o mar para trás. Não com a lenta paciência de uma maré, mas com a força de uma noite inteira de sopro, até que as águas se erguessem como muros não feitos por mãos humanas, e o leito do mar, submerso desde que o mundo era jovem, voltasse a respirar ar seco. Fiz um caminho onde nunca houvera caminho. Não o fiz para exibir poder por deleite próprio, mas porque um povo que só se conhecera como escravo precisava, uma vez na sua história, de caminhar sobre um chão que obedecia a Deus antes de obedecer a si mesmo.
Atravessaram em terra seca, o muro de água à direita e à esquerda, e Eu observei-os partir — este povo teimoso, temeroso, maravilhado, sandálias na lama que fora mar, crianças ao colo, o pão ázimo da sua pressa ainda às costas. E quando o Egito tentou segui-los, quando os carros rolaram sobre o chão que Eu secara, perturbei-os: entupi-lhes as rodas, confundi-lhes a ordem, deixei que a própria libertação destinada a Israel se tornasse a ruína daqueles que tentaram tomá-la à força em vez de a receber como dom. Quando Moisés estendeu de novo a mão, o mar voltou a si, e o exército do Egito, que se fizera inimigo dos livres, viu as águas fecharem-se sobre o mesmo ferro em que confiara.
Naquela noite fui nuvem, fogo, muro, vento e caminho, porque isso é o que Eu sempre Me disponho a tornar-Me por um povo que precisa mais de libertação do que de explicação. Israel cantou depois, e Miriã tomou o tamboril, e recebi o seu cântico como sempre recebo o verdadeiro louvor — não como tributo que Me é devido, mas como o som que um povo faz quando finalmente compreende que foi carregado, não apenas comandado.
O Registro
Êxodo 14 relata a fuga de Israel do exército perseguidor do Faraó junto ao Mar dos Juncos (tradicionalmente traduzido como "Mar Vermelho"). A coluna de nuvem de dia e de fogo de noite (Êxodo 13:21-22) acompanha Israel desde o início do Êxodo; em Êxodo 14:19-20 essa mesma coluna move-se para se colocar entre os acampamentos egípcio e israelita, dando luz a um lado e escuridão ao outro. O próprio mar divide-se quando "o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental, toda aquela noite" (Êxodo 14:21), linguagem que em hebraico invoca de novo ruach — vento, sopro, espírito — o mesmo termo usado para o Espírito que pairava sobre a criação em Gênesis 1:2.
A tradição católica, seguindo os Padres e São Paulo, que chama à passagem de Israel pelo mar um batismo "na nuvem e no mar" (1 Coríntios 10:1-2), lê a travessia do Êxodo como prefiguração do batismo cristão e do Mistério Pascal: libertação do cativeiro através da água, sob orientação divina, para uma nova identidade de aliança. A narrativa do Êxodo é proclamada na Vigília Pascal precisamente por este peso tipológico. O Catecismo (CIC 1094, 1221) situa a travessia do Mar Vermelho entre as "figuras" do Antigo Testamento cumpridas na vitória pascal de Cristo, e a tradição litúrgica da Igreja há muito associa a coluna condutora à presença ativa do Espírito de Deus a conduzir o Seu povo rumo à liberdade.
Fontes e citações
- Exodus 13:21-22
- Exodus 14:19-31
- 1 Corinthians 10:1-2
- Catechism of the Catholic Church 1094, 1221