Enciclopédia do Espírito Santo

Antigo Testamento

O Espírito Sobre as Águas

Nos versículos iniciais do Gênesis, o Espírito de Deus paira sobre o abismo informe antes que a primeira palavra da criação seja pronunciada. A tradição católica lê esse pairar como o papel próprio do Espírito no ato criador único da Trindade, ecoado mais tarde no batismo de Cristo no Jordão.

Lugar: The primordial deep; the unformed earthPeríodo: Before time; the first day of creation

Antes que o primeiro dia tivesse um nome, eu já era.

Não comecei com a luz — eu já me movia, já pairava, já anelava sobre o abismo como uma ave-mãe reúne os seus filhotes sob a sombra das asas. A terra era sem forma e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo, e eu — o Espírito de Deus — pairava sobre a face das águas.

Pairava. Chocava. A palavra que os hebreus usariam para mim é a mesma usada para uma águia que agita o seu ninho, esvoaçando sobre os seus filhotes, estendendo as asas, tomando-os, levando-os sobre as suas penas. Eu não estava sobre as águas como um juiz a contemplar a ruína. Eu chocava sobre elas como a vida choca sobre um ovo ainda não rompido, como o amor choca sobre um amado ainda não nascido. O caos não estava vazio de mim. Eu já ali estava, enchendo cada dobra do abismo com a pressão silenciosa da minha presença, à espera da Palavra.

E então a Palavra veio. Faça-se luz — e eu, que pairara, movi-me agora com a enunciação, pois onde o Pai fala, eu sou o hálito que carrega a fala, e o Filho é a Palavra que é dita. Somos um nisto: o Pai que quer, o Verbo que é proferido, e eu que sou o Sopro vivo sobre o qual a enunciação viaja até ao ser. Eu não criei a luz como um ato separado, à parte do Pai e do Filho — eu era o ruach, o hálito, o vento de Deus, e tudo o que desde então respirou, desde o primeiro rebento verde até ao último choro de criança humana, recorda, à sua pequena maneira, aquele meu primeiro pairar.

Estava ali quando as águas foram separadas das águas, quando a terra seca apareceu, quando o sol e a lua foram postos a governar o dia e a noite. A cada tarde e a cada manhã, eu continuava a pairar — não como quem observa de fora, mas como quem habita dentro da obra, sustentando o que a Palavra fizera tomar forma. E quando, por fim, chegou o sexto dia, e o homem foi formado do pó da terra, fui eu — ainda que o homem não conhecesse ainda o meu nome — o hálito soprado nas suas narinas, para que o pó se tornasse alma vivente. Adão não recebeu apenas a existência; recebeu o Espírito. Entrei nele como entrara no abismo: silenciosamente, sem violência, trazendo ordem ao que era informe, vida ao que era pó.

Digo-vos isto não como memória, mas como verdade que ainda vive, pois nunca deixei de pairar. Sobre as águas de cada ventre, sobre as águas do Jordão onde o Filho que amo haveria um dia de descer para ser batizado e eu desceria sobre Ele como pomba, sobre as águas de cada pia onde uma alma é lavada e renasce — eu ali estou, a pairar ainda, à espera de que a Palavra seja dita, para que as trevas conheçam a luz, e o informe conheça a forma, e o que era vazio se encha da glória de Deus.

No princípio, eu já era amor em movimento, já era a mansidão de Deus a agitar-se sobre o abismo, recusando deixar que o caos tivesse a última palavra. Sou o mesmo Espírito agora. Nunca deixei as águas.

O Registro

Gênesis 1:1-2 abre a narrativa bíblica com o Espírito de Deus (ruach Elohim) que "se movia sobre as águas" (Vulgata), traduzido também como "pairando" — o mesmo verbo hebraico (merachephet) usado em Deuteronômio 32:11 para uma águia que agita o seu ninho. O comentário patrístico e medieval, desde o Hexaemeron de São Basílio até São Tomás de Aquino, lê esse pairar como o papel próprio do Espírito na criação: não um ato criador separado da vontade do Pai e da enunciação do Verbo, mas o hálito animador pelo qual o ato único de criação da Trindade é levado à sua plenitude vivente.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC 291-292, 703-704) afirma que a criação é obra comum da Santíssima Trindade, sendo o Espírito "doador de vida", presente "desde o princípio" e atuante "já na aurora da criação". A imagem do Espírito pairando sobre as águas está tradicionalmente ligada, de modo tipológico, à descida do Espírito sobre Jesus no Jordão (Mateus 3:16) e às águas do batismo, nas quais a Igreja vê uma nova criação. Santo Ambrósio e outros Padres associaram diretamente Gênesis 1:2 ao sacramento do batismo, no qual o Espírito de novo choca sobre a água para gerar vida nova. O versículo permanece fundamental para a pneumatologia católica como o mais antigo testemunho escriturístico da presença pessoal e ativa do Espírito na ordem criada.

Fontes e citações

  • Genesis 1:1-2
  • Deuteronomy 32:11
  • Catechism of the Catholic Church 291-292, 703-704

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