O Rapaz com o Espírito Mudo
Ao pé do monte onde a glória de Cristo acabara de se revelar, os seus discípulos falham em libertar um rapaz atormentado desde criança por um espírito mudo e convulsivo. O clamor desesperado de um pai — 'creio; ajuda a minha incredulidade' — torna-se uma das orações mais verdadeiras dos Evangelhos, e Jesus expulsa o que nove homens não conseguiram, ensinando que esta espécie só sai pela oração.
Acabara de descer o monte com ele — embora, claro, não precise de monte nem de descida, não estou preso a picos como a carne está, mas quero dizer que acabara de testemunhar, com a terrível proximidade que não te escondo, uma glória tão desvelada que Pedro não sabia o que dizia ao oferecer-se para construir três tendas. A luz atravessara as próprias vestes de Cristo. A voz do Pai caíra de uma nuvem que sempre foi um dos meus sinais mais antigos de presença. E depois desceram de volta para uma discussão.
Uma multidão. Escribas a debater. Nove discípulos de pé nos destroços do próprio fracasso, e um pai no centro de tudo, a segurar um rapaz que não podia falar por si mesmo porque outra coisa falava através dele — apoderara-se dele, mais precisamente, pois isto era possessão, e não doença no sentido comum. Desde criança, disse o pai. Lançado ao fogo. Lançado à água. Uma infância inteira gasta a tentar matá-lo por dentro.
Eu vira os nove tentarem. Não digo isto para os envergonhar — nunca usei o fracasso para envergonhar uma alma que amo — mas tinham tentado ordenar a saída do espírito com palavras que noutras vezes, noutras cidades, tinham funcionado, e desta vez as palavras voltaram vazias. Algo naquele vazio deixou o desespero regressar a um pai que, creio, se permitira um lampejo de esperança ao ver discípulos capazes, por vezes, de fazer o que o seu Mestre fazia.
'Ó geração incrédula', disse Jesus, e quero que ouças o cansaço por baixo disso, um cansaço que já senti em cada era desde então, a ver os meus dons pedidos como magia e recebidos como desilusão quando não são obedecidos e confiados como convites. 'Até quando hei de estar convosco?' Trouxeram o rapaz. O espírito, ao vê-lo, lançou-o logo por terra, em convulsões, espumando — a crueldade a representar-se uma última vez antes da sua expulsão, como o desespero faz sempre o seu maior ruído mesmo antes de a porta se abrir.
Jesus perguntou ao pai há quanto tempo isto durava. 'Desde criança.' E então o pai disse as palavras que sobreviveram a quase todas as outras ditas naquele dia: 'Se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos.' Se podes. Ouvi toda a história exausta daquela família dobrada em duas palavras. Jesus devolveu-lhe a frase, com suavidade, do mesmo modo como devolvi mil orações duvidosas aos que as fizeram: 'Se podes! Tudo é possível para quem crê.'
E o pai — eu já me movia nele antes de abrir a boca, movera-me nele durante toda a caminhada desesperada até àquele monte — clamou, chorando, uma das orações mais honestas que já ajudei uma garganta humana a produzir: 'Creio! Ajuda a minha incredulidade!' Não fingiu uma fé que não tinha. Não representou certeza para a multidão. Entregou a Cristo toda a moeda partida do seu coração, a parte verdadeira e a parte duvidosa juntas, e pediu-lhe que gastasse ambas.
Essa é a oração que lhe ensinei, e é a oração que ainda ensino. A fé não é a ausência de incredulidade. É trazer a incredulidade ao único que também a pode curar.
Jesus repreendeu o espírito — 'espírito mudo e surdo, eu te ordeno, sai dele e nunca mais entres nele' — e o rapaz convulsionou uma última vez, violentamente, e ficou tão imóvel que a multidão disse: 'Está morto.' Não me esquivo a quão perto a libertação pode parecer da morte; já o vi no batismo, no Getsémani, em toda verdadeira morte que precede uma verdadeira ressurreição. Jesus tomou-lhe a mão. Levantou-o. E ele ficou de pé.
Depois, a sós, os discípulos perguntaram por que tinham falhado. 'Esta espécie não pode sair senão pela oração.' Não por técnica. Não por uma fórmula que funcionara na última aldeia. Oração, que não é senão o trânsito contínuo e humilde entre um coração humano e eu.
O Registro
O episódio está registado em Marcos 9:14-29, com paralelos em Mateus 17:14-21 e Lucas 9:37-43, imediatamente a seguir à Transfiguração. A colocação de Marcos é deliberada: glória desvelada no monte acima, impotência e incredulidade humanas no vale abaixo. O local tradicional é perto do Monte Tabor, embora alguns estudiosos proponham o Monte Hermon, dada a sua proximidade com Cesareia de Filipe na narrativa precedente (Marcos 8:27).
Os sintomas descritos — convulsões, espuma, ranger de dentes, rigidez, tentativas repetidas de autodestruição pelo fogo e pela água — levaram alguns comentadores modernos a notar uma semelhança com crises epiléticas, embora o próprio Evangelho identifique a causa como um espírito impuro e mudo a agir com malícia pessoal: isto é narrado como um exorcismo, não meramente como uma cura. A instrução de que 'esta espécie não pode sair senão pela oração' (alguns manuscritos acrescentam 'e pelo jejum') é fundamental no ensinamento católico sobre o combate espiritual e o discernimento, repetidamente citada para sublinhar a dependência da graça, e não da fórmula ou da técnica. O clamor do pai, 'Creio! Ajuda a minha incredulidade!' (Marcos 9:24), é um dos versículos mais frequentemente citados nos escritos devocionais católicos sobre a natureza da fé como jornada contínua, e não como posse garantida de uma vez por todas.
Fontes e citações
- Mark 9:14-29
- Matthew 17:14-21
- Luke 9:37-43