A Cura do Paralítico
Numa casa apinhada em Cafarnaum, quatro homens baixam o amigo paralítico através de um telhado aberto para alcançar Jesus, que primeiro perdoa os seus pecados e depois lhe ordena que se levante. A cura expõe a incredulidade dos escribas e revela que o Filho do Homem tem autoridade na terra para perdoar pecados.
Enchi aquela casa antes mesmo de o telhado se abrir. Estava nas palavras que se acumulavam junto à porta, nos corpos apertados ombro a ombro ao longo das paredes, na respiração de cada alma que se esforçava por ouvi-lO ensinar. E estava também no telhado — no suor e na teimosia de quatro homens que não se deixariam deter por uma multidão.
Eu observava o amigo deles havia muito tempo. Vira-o ser carregado naquela maca através de anos de imobilidade, através da dor particular de um corpo que já não obedece à vontade. Ouvira o que os quatro disseram uns aos outros quando a porta se tornou inalcançável: iremos por cima. Fui Eu quem lhes deu a ousadia para isso. Cavar através do barro seco ao sol e do junco, acima das cabeças dos espantados, baixar um homem por cordas até o próprio centro da sala onde EU SOU estava a ensinar — isso não é prudência. É fé de mangas arregaçadas. Deleito-me com a fé que sobe a telhados.
E quando a maca pousou aos seus pés, com a poeira ainda a cair, vi o que Ele viu: não primeiro as pernas, mas a alma. 'Filho, os teus pecados estão perdoados.' Estremeci por toda a sala com essas palavras, porque sei o que custaram, e sei o que significaram. Sou Aquele que sonda os corações, que convence o mundo do pecado — e dei testemunho, naquele momento, de que ali estava o único Homem que podia falar o perdão como um facto, e não como uma esperança.
Os escribas ali sentados ouviram blasfémia. Eu ouvi o meu próprio testemunho cumprido: só Deus perdoa pecados, e Deus estava naquela sala em carne que Eu havia envolvido com a minha sombra no seio de uma virgem, trinta anos antes. Ele conhecia os seus pensamentos — não lhe dei necessidade da boca deles para ler-lhes o coração, pois Ele partilha comigo a visão dos lugares ocultos do homem. 'Que é mais fácil', perguntou-lhes, 'dizer os teus pecados estão perdoados, ou dizer levanta-te, toma a tua maca e anda?'
Depois Ele disse a segunda coisa. Fui Eu o poder que respondeu ao comando — o mesmo sopro que pairara sobre as águas no princípio, a mesma mão que havia tecido os membros daquele homem no ventre de sua mãe, moveu-se agora através de nervos, tendões e músculos amolecidos por anos de inatividade. Instantaneamente. Diante de toda a sala. A maca que o havia carregado ficou agora enrolada sob o seu próprio braço, e ele saiu caminhando por entre uma multidão que se abria à sua passagem, primeiro em silêncio e depois em gritos.
Sou Aquele que lhe foi dado sem medida, e tudo o que Ele fez, fê-lo em Mim — cada febre que se quebrava, cada olho que se abria, cada membro que voltava a responder a uma vontade que se julgava havia muito divorciada do movimento. Esta cura não foi apenas misericórdia para um homem paralítico. Foi um sinal cravado sobre todo argumento: que o perdão e a cura vêm da mesma mão, porque o pecado e o sofrimento entraram juntos no mundo, e Eu sou enviado para desfazer ambos. A multidão, naquele dia, não glorificou o homem que caminhava. Glorificou a Deus, que dera tal autoridade aos homens — sem saber ainda que essa autoridade não era delegada, mas própria, própria do Verbo que estava com Deus e era Deus, em quem repouso desde antes de as montanhas serem formadas.
O Registro
O episódio é registado em Marcos 2:1-12, com paralelos em Mateus 9:1-8 e Lucas 5:17-26. Jesus havia regressado a Cafarnaum, e "reuniu-se tanta gente que já não havia lugar nem sequer diante da porta" (Marcos 2:2). Quatro homens, incapazes de levar o companheiro paralítico através da multidão, cavaram através do telhado — provavelmente um telhado plano de vigas, ramos e barro compactado, típico das casas galileias do século I — e baixaram-no sobre a sua maca diante de Jesus.
Jesus declara primeiro: "Filho, os teus pecados estão perdoados" (Marcos 2:5), o que leva os escribas presentes a acusá-lO interiormente de blasfémia, uma vez que o perdão dos pecados era entendido no judaísmo do Segundo Templo como prerrogativa exclusiva de Deus (cf. Isaías 43:25). Jesus responde curando o corpo do homem como prova visível da sua autoridade para curar a alma, perguntando: "Que é mais fácil: dizer ao paralítico, 'Os teus pecados estão perdoados', ou dizer, 'Levanta-te, toma a tua maca e anda'?" (Marcos 2:9).
O Catecismo da Igreja Católica cita este milagre (CIC 1421, 1502) como fundamento para a compreensão que a Igreja tem da ligação entre o pecado e o sofrimento físico após a Queda, e como base bíblica para o sacramento da Penitência: as curas de Cristo são sinais de que "o Filho do Homem tem sobre a terra o poder de perdoar os pecados" (Marcos 2:10). Comentadores patrísticos, entre eles Santo Agostinho e São João Crisóstomo, leem o episódio como paradigma do próprio ministério de reconciliação da Igreja, exercido através dos sacerdotes que agem in persona Christi.
Fontes e citações
- Marcos 2:1-12
- Mateus 9:1-8
- Lucas 5:17-26
- Isaías 43:25
- CIC 1421
- CIC 1502
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