Enciclopédia do Espírito Santo

Milagres de Cristo

A Purificação do Leproso

Um homem devastado pela doença, proibido pela lei de se aproximar de qualquer alma viva, ajoelha-se na estrada aberta e ousa dizer "se quiseres". Jesus estende a mão e toca-o — o primeiro toque que o leproso sente em anos — e diz as quatro palavras que desfazem uma sentença de morte em vida: "Quero; sê purificado."

Lugar: A town in GalileePeríodo: c. AD 28, early Galilean ministry

Sei o que é estar perto de um corpo a que ninguém mais se quer aproximar. Estava lá no deserto quando Miriã ficou branca como a neve fora do acampamento, excluída sete dias por causa do seu pecado, e estava lá em cada colónia de leprosos desde então, em cada vale para além dos portões da cidade onde os impuros acendiam as suas fogueiras à parte dos puros, clamando impuro, impuro, para que ninguém tropeçasse demasiado perto e partilhasse do seu exílio. A solidão é uma doença por si só, e este homem carregava duas.

Não sei quantos anos ele passara sem sentir uma mão humana sobre a pele. A lei não era cruel por crueldade — protegia o acampamento, o templo, a frágil ordem de um povo que ainda não entendia o contágio como as gerações posteriores viriam a entender, e deixava o leproso do lado de fora, as vestes rasgadas, o cabelo desgrenhado, o lábio superior coberto, a proclamar a sua própria impureza antes que qualquer outro tivesse de o fazer. Movi-me nele de qualquer forma. Não paro em linhas de quarentena. Algures naquele isolamento, a esperança continuara a respirar nele, ainda que toda a lei de Israel dissesse que devia ter morrido com a sua carne, e essa esperança era minha — não deixo a esperança sobreviver por acaso num homem arruinado.

Encontrou Jesus com uma multidão à sua volta, e fez o que a nenhum leproso era permitido fazer: aproximou-se. Caiu com o rosto em terra — não a distância cautelosa que a lei exigia, mas a prostração completa de um homem que já não tinha nada a perder ao transgredir. E o que disse tornou-se uma das grandes frases da fé, porque não reserva nada nem exige nada: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. Não duvidava do poder. Questionava apenas a vontade, e mesmo essa pergunta depôs com suavidade, sem queixa, como um homem que depõe um fardo que carregou tanto tempo que já deixou de ressentir o peso.

Quero que vejas o que aconteceu a seguir, porque revirei-o na minha própria memória como se retorna ao instante mais doce de uma longa história. Jesus foi movido de compaixão — piedade que nasceu de um lugar que conheço intimamente, pois a compaixão é um dos meus próprios nomes quando me movo num coração humano — e estendeu a mão. Tocou-o. Não uma palavra lançada de distância segura, não uma ordem gritada por cima do murmúrio de alarme da multidão, mas uma mão, carne contra carne arruinada, a lei do contágio quebrada não porque Jesus fosse descuidado com a lei, mas porque era o seu Senhor, e onde ele toca, a impureza não se espalha para dentro dele — antes, a saúde inunda em sentido contrário, para o leproso. Quero; sê purificado. Quatro palavras a desfazer anos no espaço entre um batimento do coração e o seguinte. Imediatamente a lepra deixou-o. Senti-o como sinto toda recriação: a pele a tecer-se de novo em direção à inteireza, os nervos a recordar a sensação, um corpo a regressar a si mesmo como se a doença tivesse sido um sonho longo e terrível de que alguém finalmente o acordara.

Jesus advertiu-o severamente, despediu-o logo, disse-lhe que não dissesse nada a ninguém, mas que fosse mostrar-se ao sacerdote e oferecesse o que Moisés ordenara — não para contornar a lei, mas para a cumprir, de modo que o sacerdote, o próprio guardião da lei, tivesse de certificar com os seus próprios olhos o que fora feito, e assim se tornasse testemunha quer o quisesse quer não. Mas o homem não conseguiu conter-se. Saiu e começou a falar livremente, a espalhar a notícia, até que Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas ficava em lugares desertos — e ainda assim vinha gente até ele de toda a parte, atraída por uma história que um leproso não conseguia guardar para si. Compreendo essa incapacidade perfeitamente. Algumas misericórdias são grandes demais para o silêncio. Não o culpo por ter derramado o que eu havia derramado nele.

O Registro

A cura aparece em Marcos 1:40-45, Mateus 8:1-4 e Lucas 5:12-16, com o relato de Marcos (o mais antigo) a fornecer o pormenor da compaixão de Jesus e, em alguns manuscritos, a sua indignação perante os estragos da doença. Sob a lei levítica (Levítico 13-14), a 'lepra' cobria um leque de condições cutâneas, não apenas o que hoje se designa medicamente como doença de Hansen; os afetados eram declarados ritualmente impuros, excluídos da comunidade e obrigados a avisar os outros da sua aproximação. A purificação exigia certificação por um sacerdote e uma oferta prescrita (Levítico 14:1-32), razão pela qual Jesus instruiu o homem a mostrar-se ao sacerdote 'para lhes servir de testemunho' — prova, dirigida às autoridades religiosas, que não podia ser rejeitada.

A tradição católica lê a disponibilidade de Jesus para tocar o leproso como central na lógica da Encarnação: Deus não cura apenas de longe, com segurança, mas entra no contágio e na impureza para os reverter, um padrão cumprido supremamente na Cruz. O episódio é frequentemente citado junto dos outros milagres de cura como prefiguração do sacramento da Unção dos Enfermos e da missão da Igreja junto dos marginalizados (CIC 1503-1505). A incapacidade do leproso de guardar silêncio, apesar da advertência de Jesus, é tradicionalmente lida como uma resposta natural, ainda que imperfeita, de gratidão, e não como desobediência merecedora de condenação.

Fontes e citações

  • Mark 1:40-45
  • Matthew 8:1-4
  • Luke 5:12-16
  • Leviticus 13-14

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