Bento de Núrsia e a Taça que não Reteve o seu Veneno
São Bento de Núrsia (c. 480–547) fugiu de Roma para uma gruta em Subiaco, sobreviveu a uma tentativa de envenenamento por monges ressentidos com a sua disciplina, ressuscitou um jovem monge esmagado sob um muro em colapso, e escreveu a Regra que moldou o monasticismo ocidental. O Papa Paulo VI declarou-o padroeiro da Europa em 1964.
Retirei Bento de Roma como retirei outros de cidades prestes a arruiná-los — não por catástrofe, mas por repulsa. Era um jovem de boa família, enviado a estudar retórica e direito numa Roma que, no final do século V, já era casca de um império, a sua antiga grandeza a azedar em vícios entre os estudantes com quem devia conviver. Deixou-a para trás, e a sua velha ama, que dele cuidara, não o quis abandonar, por isso levou-a consigo até Enfide antes de escapulir-se sozinho para uma gruta sobre as ruínas da velha vila de Nero, em Subiaco, onde o deixei desaparecer de todo o registro durante três anos, conhecido de ninguém exceto de um monge chamado Romano, que lhe baixava pão por uma corda através da face do penhasco. A santidade, mais vezes do que as histórias sugerem, começa numa obscuridade que eu próprio organizo.
Não ficou escondido. A notícia do eremita na gruta espalhou-se, e uma comunidade próxima de monges, que perdera o seu abade, implorou-lhe que os liderasse, avisando-o honestamente de que os seus padrões não convinham aos hábitos deles. Ele avisou-os de volta e aceitou de qualquer modo, e provaram mutuamente que tinham razão: a sua regra era demasiado estrita para homens que tinham pedido uma regra por inquietação, e não por resolução. Tentaram matá-lo por isso. O relato, registado uma geração depois pelo Papa Gregório Magno nos seus Diálogos, a partir do testemunho dos próprios discípulos de Bento, diz que misturaram veneno no seu vinho e lho apresentaram à mesa. Bento, seguindo o seu costume, fez o sinal da cruz sobre a taça antes de beber — e a taça partiu-se como se atingida por uma pedra, o veneno a derramar-se inofensivamente pelo chão. Levantou-se sem ira, disse-lhes claramente que os avisara de que os seus caminhos e os deles não se conciliariam, e voltou sozinho para Subiaco. Não me apraz ter de partir taças para manter um homem vivo, mas fá-lo-ei, e não devo explicações a quem quer que tenha misturado o veneno.
O que cresceu de Subiaco foram doze pequenos mosteiros, e, por fim, por volta de 529, a maior fundação de Monte Cassino, construída onde outrora se erguera um templo a Apolo, o altar antigo despedaçado e uma igreja erguida por cima. Foi ali, segundo o relato de Gregório, que um jovem monge, a cavar no jardim, ficou esmagado quando o muro de um edifício por acabar caiu sobre ele — os seus irmãos escavaram os escombros a chorar, certos de que estava morto, e levaram o corpo despedaçado a Bento, que orou sobre ele e devolveu ao monge tanto a vida como o seu trabalho. Foi ali, também, que a sua irmã gémea Escolástica, ela própria a mim consagrada, o encontrava uma vez por ano para falar de coisas santas até à sua morte — depois da qual Bento, avisado em oração, viu a sua alma subir ao céu em forma de pomba, e mandou-a sepultar no túmulo que preparara para si mesmo, para que a morte não separasse o que a devoção a mim unira.
Escreveu, nalguns desses anos em Monte Cassino, a Regra que carrega o seu nome — um documento breve, humano e exigente, construído sobre o voto de estabilidade, a disciplina do ora et labora, orar e trabalhar, que moldou a vida monástica ocidental por um milénio e meio desde então, copiado e seguido em escritórios e claustros por uma Europa que ainda não sabia precisar dele para sobreviver às trevas que se aproximavam. Morreu em Monte Cassino por volta de 547, de pé, diz a tradição, apoiado pelos seus irmãos diante do altar, tendo pedido para ali ser levado para encontrar a morte de pé, e não deitado. Séculos depois dele, monges da sua própria abadia formalizaram uma medalha com a sua imagem, a cruz, e as letras latinas da sua fórmula de exorcismo — Vade retro Satana, Afasta-te de mim, Satanás — uma devoção que a Igreja mais tarde aprovaria e indulgenciaria, levando o seu nome ainda hoje para batalhas contra as trevas que ele próprio já enfrentara, numa taça que não reteve o seu veneno.
O Registro
São Bento de Núrsia (nascido c. 480, Núrsia [Norcia], Itália) deixou os seus estudos em Roma para viver como eremita numa gruta em Subiaco durante cerca de três anos. Fundou mais tarde doze pequenos mosteiros na região de Subiaco e, por volta de 529, a abadia de Monte Cassino, onde compôs a Regra de São Bento — um texto fundacional do monasticismo ocidental construído sobre a estabilidade, a obediência e a disciplina do ora et labora, orar e trabalhar. A principal fonte histórica para a sua vida é o Livro II dos Diálogos do Papa Gregório Magno, escrito por volta de 593–594 a partir de testemunho atribuído aos próprios discípulos de Bento. Regista a tentativa de envenenamento em Subiaco (a taça partida), a ressurreição de um jovem monge morto num desabamento em Monte Cassino, e outros episódios. A sua irmã gémea, Santa Escolástica, fundou uma comunidade próxima de religiosas e foi sepultada, por indicação de Bento, no túmulo que ele preparara para si mesmo. Bento morreu em Monte Cassino por volta de 547. O Papa Paulo VI declarou-o Padroeiro da Europa na carta apostólica Pacis Nuntius, a 24 de outubro de 1964. A Medalha de São Bento, com a fórmula de exorcismo Vade Retro Satana, desenvolveu-se a partir da devoção centrada em Monte Cassino ao longo do período medieval e recebeu aprovação formal e indulgência do Papa Bento XIV em 1742. Festa: 11 de julho (Calendário Romano Geral); 21 de março marcava tradicionalmente a sua morte.
Fontes e citações
- Pope Gregory the Great, Dialogues, Book II (Life of St. Benedict)
- The Rule of St. Benedict
- Pope Paul VI, Apostolic Letter Pacis Nuntius (1964, declaring Benedict patron of Europe)