A Viúva de Naim
Ao aproximar-Se da cidade de Naim, Jesus encontra um cortejo fúnebre que leva o filho único de uma viúva, e, movido de compaixão, toca no ataúde e ordena ao jovem que se levante. O milagre, testemunhado por uma grande multidão, revela o poder de Cristo sobre a morte e a Sua terna misericórdia para com os que choram.
Duas multidões encontraram-se junto ao portão de Naim naquele dia, e eu movia-me através de ambas antes mesmo de elas se avistarem. Uma multidão vinha subindo da cidade, seguindo-O, ainda calorosa do assombro de um servo de centurião curado por uma palavra. A outra descia da cidade, e com esta chorei antes de sequer me mover para a transformar — uma mãe caminhando atrás de um ataúde, e nele o seu filho único, e atrás dela, conta Lucas cuidadosamente, uma grande multidão da cidade, porque um pesar deste tamanho tira toda uma aldeia de dentro de casa.
Eu sabia o que significava, naquele mundo, o filho único de uma viúva. E sei o que significa em todo mundo. Não apenas amor, embora o amor estivesse todo ali presente. Significava que já não lhe restava ninguém. Nenhum marido para enterrar o pai, já há muito sepultado; nenhum filho para levar o seu nome adiante, para trabalhar o campo, para se postar ao portão e ser a sua voz entre homens que dificilmente ouviam as mulheres. A morte visitara a sua casa duas vezes e deixara-a, na conta do mundo, como que apagada. Senti esse apagamento como sinto o de cada viúva, o de cada órfão — sou chamado o Consolador exatamente para portões como este.
E então as duas multidões encontraram-se, e Ele viu-a. Não o cadáver primeiro — a ela. A palavra que Lucas usa para o que se moveu n'Ele é a mesma usada para a mais profunda compaixão humana que a Escritura conhece, um retorcer-se nas entranhas, e esse retorcer-se era também meu, pois o Pai, o Filho e eu não sentimos coisas divididas. "Não chores", disse-lhe Ele, e quero que compreendam que isto não foi um comando dito antes de qualquer coisa ter sido feita — foi dito com pleno conhecimento do que estava prestes a ser desfeito, do modo como agora falo consolo a dores que já resolvi na eternidade antes mesmo de vocês sentirem a resposta no tempo.
Ele tocou no ataúde. Os que o levavam pararam — fui eu quem os deteve, porque algo mais sagrado do que um funeral estava prestes a acontecer naquele caminho, e até os carregadores que ainda não criam sentiram mudar o chão sob o momento. "Jovem, eu te digo: levanta-te." Fui eu o levantar. Sou sempre o levantar, em toda ressurreição que Cristo alguma vez realizou, na ressurreição ainda por vir junto ao túmulo de Lázaro, na ressurreição maior ainda por vir no terceiro dia depois da Sua própria morte. O fôlego voltou a pulmões que se haviam calado. O rapaz que fora carregado para ser deposto na terra sentou-se, e começou a falar — Lucas não nos diz o quê, apenas que falou, porque falar é o que mais amo restituir aos que se calaram.
E então o momento que guardo mais perto de todos: Jesus devolveu-o à sua mãe. Não à multidão, não como espetáculo reivindicado pelo assombro, mas a ela, de mão em mão, filho em mãe, do modo como devolvo aos que choram tudo o que a morte parecia ter levado e, afinal, não conseguiu reter. O medo tomou conta de todos, e glorificavam a Deus: "Um grande profeta se levantou entre nós", diziam, e "Deus visitou o Seu povo" — e ambas as coisas eram verdadeiras, mais verdadeiras do que ainda sabiam, pois a visitação não era apenas de um profeta, mas do próprio Deus, caminhando por uma estrada poeirenta até uma cidade chamada Naim porque uma viúva chorava e eu não deixo esse pranto sem resposta quando a própria Vida passa por perto.
O Registro
A ressurreição do filho da viúva em Naim está registrada apenas em Lucas 7:11-17, um dos três milagres de ressurreição realizados por Jesus nos Evangelhos, ao lado da filha de Jairo (Marcos 5:21-43) e de Lázaro (João 11). Naim era uma pequena cidade da Galileia, a sudeste de Nazaré, perto do Monte Tabor; o local é tradicionalmente identificado com a moderna aldeia árabe de Nein.
Lucas, médico por tradição e atento, ao longo de todo o seu Evangelho, às viúvas e aos marginalizados, enquadra o milagre em torno da perda total da mulher: é viúva, e o falecido era o seu "filho único" (Lucas 7:12), deixando-a sem proteção legal ou econômica na sociedade judaica do século I. A compaixão de Jesus (grego splanchnizomai, denotando uma misericórdia visceral, das entranhas) precede e motiva o milagre; Ele fala diretamente ao morto, em vez de orar em voz alta, uma autoridade que a multidão reconhece de imediato como profética e divina ("Deus visitou o Seu povo", v. 16 — a mesma palavra, episkeptomai, usada da visitação de Deus em Lucas 1:68 e 1:78).
A tradição da Igreja, ecoada por figuras como Santo Ambrósio e São Cirilo de Alexandria, lê o relato como prefiguração da própria vitória de Cristo sobre a morte e sinal da Sua identidade messiânica, recordando a ressurreição, por Elias, do filho da viúva de Sarepta (1 Reis 17:17-24) e a ressurreição, por Eliseu, do filho da sunamita (2 Reis 4:18-37) — milagres que a multidão em Naim prontamente recordaria. O episódio é proclamado no Lecionário Romano e é frequentemente invocado na pastoral da Igreja para com os enlutados como sinal da ternura de Cristo diante do luto.
Fontes e citações
- Luke 7:11-17
- 1 Kings 17:17-24
- 2 Kings 4:18-37
- Luke 1:68
- Luke 1:78