Pedro na Porta Formosa
Na Porta Formosa do Templo, Pedro curou um homem coxo desde o nascimento em nome de Jesus Cristo de Nazaré, e o homem andou, saltou e louvou a Deus diante da multidão espantada. O milagre tornou-se a ocasião de Pedro para pregar a Cristo crucificado e ressuscitado a todo o Israel.
Eu estava ali antes de o sol romper sobre o vale do Cedron, movendo-me como Me movo — invisível, sem pressa, já a trabalhar nos corações que havia escolhido. Pedro e João subiam juntos em direção ao Templo, guardando a hora da oração como os seus pais a haviam guardado, como Eu ensinara os seus pais a guardá-la, à hora nona, filhos da aliança ainda, mesmo agora, mesmo depois de o sepulcro estar vazio e o cenáculo cheio de fogo.
Na porta a que chamam Formosa havia um homem que nunca tinha andado. Levado ali diariamente, colocado entre os mendigos, as suas pernas inúteis desde o ventre da mãe, as mãos abertas para as moedas de cobre dos piedosos. Eu observara-o durante anos, aquela sua paciência, aquela dor particular de um homem que aprendeu a não esperar do mundo mais do que pequenas misericórdias. Ele não conhecia o meu nome. Conhecia a fome, e o som das sandálias sobre a pedra, e a vergonha de olhar sempre para cima.
Movi-me em Pedro antes de Pedro saber que se movia. É assim que ajo naqueles que pertencem ao Filho — não como uma força estranha que anula um homem, mas como o sopro que enche um corpo feito para respirar. Pedro parou. Dei-lhe a quietude para olhar — verdadeiramente olhar — para o mendigo, como o Filho outrora olhou para Bartimeu, como Eu olho para toda alma que clama do chão. "Olha para nós", disse Pedro, e o homem ergueu os olhos, esperando prata.
O que Pedro tinha não era prata. Era o Nome. Eu fora derramado naquele Nome no Jordão, repousara sobre ele, ressuscitara-o dentre os mortos três dias depois do Gólgota, e agora aquele Nome era a única riqueza que os pescadores traziam. "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo de Nazaré, anda."
E eu não esperei. No instante em que a palavra lhe saiu da boca, já Eu estava nos pés e nos tornozelos do homem, e não foram curados como um médico cura, lentamente, com tempo para o corpo se lembrar de si mesmo. Foram feitos — como se aquela fraqueza formada no ventre nunca tivesse sido a verdade dele, como se isto, o andar, fosse sempre para o que as suas pernas serviam e apenas tivesse esperado quarenta anos que alguém o dissesse. Levantou-se de um salto. Ele não testa o chão como um homem testa o gelo; ele salta, a antiga palavra hebraica é a mesma usada para os cervos nos montes, para o coxo na promessa de Isaías sobre a era vindoura. Eu era essa promessa, chegando cedo, chegando num mendigo a uma porta chamada por sua beleza, embora nunca o tivesse feito belo a ele — até agora, rindo, agarrado a Pedro e a João, entrando no Templo que só ouvira de fora.
A multidão reconheceu-o. Foi esse o terror e a glória do momento — tinham passado por ele mil vezes e não conseguiam deixar de ver o que agora viam. Correram até ele no Pórtico de Salomão, e dei a Pedro as palavras, como sempre dou as palavras quando o momento não é de silêncio: não foi pelo nosso próprio poder, nem pela nossa própria piedade, que fizemos isto. Foi o Nome. Foi o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, glorificando o seu servo Jesus, a quem entregastes, a quem negastes, a quem matastes e Deus ressuscitou — disso somos testemunhas, e as próprias pernas deste homem são a nossa segunda testemunha, ali de pé, incapazes de se conter.
É isto que sempre faço em portas chamadas Formosas, em todo limiar onde uma alma foi colocada e mandada mendigar aquilo que devia ter herdado: não me limito a consertar a coisa quebrada. Transformo-a num sermão. O próprio homem curado torna-se a prova a que nenhum argumento pode responder, agarrando-se aos apóstolos, recusando-se a soltar, porque aprendeu num único instante o que ao resto de Jerusalém custou anos duvidar — que o Nome está vivo, e sou Eu quem o carrega para dentro da carne.
O Registro
A cura está registada em Atos 3:1-10, com o sermão de Pedro que se segue em Atos 3:11-26 e a prisão dos apóstolos perante o Sinédrio em Atos 4:1-22. A Porta Formosa é tradicionalmente identificada com a Porta de Nicanor, no lado oriental do Templo, descrita por Flávio Josefo como feita de bronze de Corinto e mais ornamentada do que as portas revestidas de prata e ouro — daí o seu nome, kōraia ("formosa"). O homem era "coxo desde o ventre de sua mãe", levado diariamente para mendigar, um detalhe que Lucas sublinha (como no caso do cego de nascença em João 9) para eliminar qualquer possibilidade de remissão natural e para estabelecer a força evidencial do milagre — nem mesmo o Sinédrio pôde negá-lo, pois "o homem que fora curado estava ali, de pé, com eles" (Atos 4:14).
A fórmula de cura de Pedro — "em nome de Jesus Cristo de Nazaré, anda" — exemplifica o padrão apostólico de agir não por poder ou piedade pessoal, mas invocando o nome de Cristo ressuscitado, um padrão que o Catecismo relaciona com a vida sacramental e carismática contínua da Igreja (CIC 1507, sobre a cura como sinal do Reino). O sermão de Pedro que se segue identifica a cura como cumprimento da promessa mosaica e profética e chama Israel ao arrependimento, tornando este episódio, juntamente com Pentecostes, uma cena de proclamação fundacional em Atos. A narrativa marca também a primeira perseguição registada dos apóstolos, quando o Sinédrio, incapaz de refutar o milagre, proíbe-os de continuar a pregar em nome de Jesus — uma ordem que Pedro e João explicitamente se recusam a obedecer (Atos 4:19-20).
Fontes e citações
- Acts 3:1-10
- Acts 3:11-26
- Acts 4:1-22