A Transfiguração
Num monte elevado, Jesus transfigura-Se diante de Pedro, Tiago e João, o Seu rosto brilhando como o sol e as Suas vestes tornando-se brancas como a luz, enquanto Moisés e Elias aparecem ao Seu lado e a voz do Pai O proclama o Filho amado. O acontecimento confirma a glória divina de Cristo antes da Sua Paixão e prefigura a ressurreição.
Fui eu quem O conduziu àquele monte. Sou Aquele que conduz — impeli-O ao deserto no início, e conduzi-O ao alto do Tabor perto do fim, porque o Pai quis que, antes de o caminho se voltar para Jerusalém e para a cruz, três homens vissem, por uma hora sem véu, o que eu sempre vi n'Ele.
Repouso sobre Ele sem medida. Isto não é uma frase — é toda a verdade de quem Ele é e de quem eu sou para Ele. Naquele monte, na presença de Pedro, Tiago e João, pesados de uma fadiga que eu deixei cair sobre eles como uma misericórdia, não Lhe dei nada de novo. Deixei que o que sempre fora verdade rompesse o véu da carne comum que Ele vestira desde Belém. O Seu rosto tornou-se como o sol. As Suas vestes tornaram-se brancas como a luz — mais brancas, diz Marcos, do que nenhum lavandeiro na terra conseguiria branquear, porque nenhum trabalho humano produz esse tipo de branco. Essa é a minha luz, a luz que eu sou, incriada, entrevista por um momento através do tecido do manto de um carpinteiro.
E trouxe outros dois para se colocarem ao Seu lado. Moisés, que vira apenas as minhas costas e vivera, cujo próprio rosto brilhara outrora com glória emprestada depois de quarenta dias noutro monte, e teve de ser velado diante do povo. Elias, que estivera à boca de uma gruta enquanto eu passava, não no vento nem no fogo, mas no som de um silêncio suave. A ambos dei vislumbres; a Cristo dei a própria glória, pois Ele não empresta o que já possui. Falavam com Ele — Lucas conta-vos do quê: do Seu êxodo, aquele que Ele havia de cumprir em Jerusalém. Eu estava também nessa conversa, entrelaçando a lei e os profetas no único fato de uma cruz para a qual todas as suas palavras apontavam.
Pedro não sabia o que dizer, e disse o que os homens dizem quando eu sobrecarreguei a mente racional e deixei apenas o assombro — façamos três tendas, retenhamos este momento, não desçamos o monte de volta à sombra que espera em Jerusalém. Deixei-o terminar. E então vim como nuvem luminosa e cobri-os com a Minha sombra — a mesma sombra que dei a uma virgem em Nazaré trinta e três anos antes, a mesma nuvem que guiou Israel pelo deserto e encheu o templo de Salomão até os sacerdotes já não poderem manter-se de pé para ministrar. A nuvem é como me visto quando não desejo ser olhado diretamente, apenas confiado.
Daquela nuvem falou o Pai, e eu levei a Sua voz aos seus ouvidos do modo como sempre levei a Sua palavra ao mundo: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ouvi-O." Três Pessoas, um momento, um monte — o Filho transfigurado em glória visível, a voz do Pai audível na nuvem, e eu a própria nuvem, a luz e a sombra que cobre, unindo o Pai ao Filho diante de testemunhas que haveriam de precisar dessa memória mais tarde, num jardim e numa cruz, quando a glória de novo se escondesse e só o sofrimento pudesse ser visto. Dei-lhes isto de antemão para que, quando o mundo escurecesse, se lembrassem de que outrora, gloriosamente, houvera luz.
Quando a nuvem se levantou, não viram mais ninguém, senão Jesus somente. É sempre assim que termina, e é sempre assim que deve terminar: toda a visão que concedo, toda a glória que desvelo, esvazia-se em favor só d'Ele. Não Moisés. Não Elias. Jesus somente. Ouvi-O.
O Registro
A Transfiguração é relatada em Mateus 17:1-8, Marcos 9:2-8 e Lucas 9:28-36, tradicionalmente localizada no Monte Tabor, embora alguns estudiosos proponham o Monte Hermon, dada a sua proximidade a Cesareia de Filipe, cenário da narrativa precedente (Mateus 16:13). Jesus leva Pedro, Tiago e João — os mesmos três que mais tarde levaria consigo mais de perto em Getsêmani — ao monte para orar (Lucas 9:28).
A Sua aparência é "transfigurada" (grego metemorphōthē): o Seu rosto brilha como o sol, as Suas vestes tornam-se resplandecentemente brancas (Mateus 17:2). Moisés e Elias aparecem, representando a Lei e os Profetas, ambos registrados na Escritura como tendo encontrado a glória de Deus num monte (Êxodo 34:29-35; 1 Reis 19:8-13). Só Lucas regista o conteúdo da sua conversa: o "êxodo" que Cristo estava para cumprir em Jerusalém (Lucas 9:31). Uma nuvem — a shekiná bíblica, o sinal visível da presença divina (cf. Êxodo 40:34-38) — cobre-os com a sua sombra, e a voz do Pai declara: "Este é o meu Filho amado; ouvi-O" (Marcos 9:7), ecoando as palavras ditas no batismo de Cristo (Marcos 1:11).
O Catecismo (CIC 554-556) apresenta a Transfiguração como uma antecipação do glorioso retorno de Cristo e um fortalecimento da fé dos apóstolos em vista do escândalo da Paixão: "por um momento, Jesus revela a Sua glória divina, confirmando a confissão de Pedro" (CIC 554). A Igreja celebra liturgicamente a Transfiguração a 6 de agosto. A tradição cristã oriental considera-a uma das Doze Grandes Festas, central para a teologia da luz divina e da theosis articulada por São Gregório Pálamas.
Fontes e citações
- Matthew 17:1-8
- Mark 9:2-8
- Luke 9:28-36
- Exodus 34:29-35
- 1 Kings 19:8-13
- CCC 554-556