Enciclopédia do Espírito Santo

Exorcismos e Feitiçarias Frustradas

O Lenço de Marília

Numa escola secundária católica perto de Marília, no interior de São Paulo, Brasil, uma missionária italiana encontrou um pequeno lenço dobrado escondido no livro escolar de uma aluna e um segundo cosido dentro da almofada, juntamente com o próprio cabelo cortado da rapariga — um feitiço lançado sobre ela por uma mulher que a prometera em casamento ao filho. A irmã queimou os objetos no incinerador do pátio da escola enquanto rezava, levou a rapariga primeiro que tudo a confessar-se, e o definhamento, a insónia e o mau aproveitamento escolar terminaram. Registado por Gabriele Amorth como testemunho da própria irmã, que afirma nunca antes ter acreditado que tais coisas fossem reais.

Lugar: Marília, São Paulo, BrasilPeríodo: século XX

Setecentas crianças constavam das listas daquela escola no interior de São Paulo, oitenta delas internas. Isto é contado como uma história acerca de um objeto. É uma história acerca de uma rapariga para quem ninguém tinha tempo de olhar, e de uma mulher que arranjou esse tempo.

Glória era a mais velha de seis irmãos, e o pai tinha morrido. O avô pagava-lhe as propinas — não como presente, mas como investimento: a esperta acabaria os estudos e depois carregaria os outros cinco. É assim que os pobres amam. Mas compreendei o que isso deposita sobre uma criança. A mãe limpava casas alheias; Glória chegava a casa para os irmãos mais novos, a roupa, a panela. Os seus dias pertenciam a toda a gente. As suas noites, veio a saber-se, também não lhe pertenciam.

Voltou das férias errada — partira cansada, regressou ausente, e depois deixou de aparecer nas aulas. Numa escola de setecentos alunos ninguém é obrigado a reparar numa rapariga calada a acinzentar-se pelas beiras.

A Irmã Maria Teresa reparou.

Reparar é a minha própria arte e, num ser humano, quase nunca se parece com coisa alguma — apenas um nome que não sai da cabeça. Não confrontou a rapariga. Mandou-a chamar sob um pretexto de geografia, um livro para abrir, porque uma criança assustada não pode ser interrogada, apenas acompanhada.

O livro abriu-se e caiu dele qualquer coisa: um lenço dobrado muito pequeno, vermelho, verde e amarelo. A irmã estendeu a mão para ele, e ele mexeu-se — saiu-lhe de debaixo da mão como escapa um peixe, e depois não estava em lado nenhum da sala.

Percorreu a carteira página a página e encontrou-o dentro do último livro. Desta vez fechou o punho e não o abriu, e o que segurava não se comportava como pano: estava vivo na sua mão, a puxar, como está vivo um fio elétrico. Invocou a Mãe do meu Filho e disse àquela coisa o que ela era e de quem não era. Depois levou-a ao fogão da cozinha, aceso para o jantar das internas, e pô-la no fogo.

Primeiro piorou. Glória não conseguia reter comida nenhuma; via-se emagrecer de uma semana para a outra. O medo alimentado durante meses não sai de um corpo no instante em que o seu penhor arde. Foi o definhamento que lhe abriu a boca, e uma irmã que nada lhe pediu senão aquilo que ela estava pronta a dizer.

Veio aos bocados. Primeiro o ruído — noite após noite, um martelar dentro da almofada, alto o bastante para a manter acordada. Depois a visita: uma mulher que entrou em casa e lhe disse que, quando acabasse os estudos, casaria com o filho dela. Deu-lhe o lenço e disse-lhe o que custaria perdê-lo: não conseguiria estudar, chumbaria nos exames, morreria.

Não vos vou dizer quem era aquela mulher. O livro que guarda este relato não a nomeia, nem à sua família, nem à sua gente, e eu também não o farei; onde é permitido aos pobres acusarem-se uns aos outros de feitiçaria, aquilo acaba com algo queimado que não é um lenço. O que vou nomear é o desígnio, porque é o desígnio que é o pecado. Alguém olhou para uma rapariga sem pai, com cinco irmãos esfomeados atrás dela, e decidiu que o futuro dela estava disponível. Era isso que estava no pano. Não poder. Posse.

A irmã fez a coisa certa pela ordem certa, o que é mais raro do que fazer a coisa certa: antes da almofada, antes do fogo, levou a rapariga a confessar-se. Nada do que faço entre vós vai mais fundo, e nunca foi preciso discutir com nenhum pedaço de pano depois de isso ter acontecido.

Depois abriram a almofada. Dentro das penas estava um embrulho, atado e volumoso, e nele o próprio cabelo de Glória — cortado da sua cabeça pela mão da visitante, com tal destreza, enquanto a rapariga ali estava sentada, que nunca deu por ele ter desaparecido —, com pequenos objetos e um segundo lenço, gémeo do que fora queimado.

Levaram tudo ao incinerador do pátio da escola e queimaram-no ao ar livre, a rezar em voz alta o tempo inteiro. O lenço não pegava fogo; alimentaram as chamas e voltaram a alimentá-las antes de ele se ir. O medo desfaz-se por ser olhado em companhia; o fogo apenas o tornou visível. Guardai essa imagem, porque é tudo o que tenho para vos dar: uma freira e uma aluna diante de um incinerador no meio do Brasil, a rezar em voz alta em plena luz do dia, e um pedaço de pano que uma criança julgava capaz de a matar a subir diante dos seus próprios olhos como aquilo que sempre fora — fio, tinta e a intenção de alguém.

A mulher que acendeu aquele fogo não acreditava em nada disto um ano antes; achava que os feitiços eram superstição. Não exijo que tenhais as opiniões certas antes de vos usar. Exijo que repareis numa criança.

Glória comeu. O seu aproveitamento escolar voltou. E dormiu — naquela noite, e na seguinte, e nas outras — sobre uma almofada onde não havia senão penas. De tudo o que foi dado àquela casa, contai essa misericórdia em primeiro lugar. Antes do prodígio, antes da libertação, antes de qualquer coisa que alguém julgasse digna de registo: uma rapariga a deitar-se no escuro e a não ouvir absolutamente nada.

O Registro

O relato é conservado por Gabriele Amorth em An Exorcist Tells His Story 2: More Stories (no original italiano, Nuovi racconti di un esorcista, 1992), coletânea em que Amorth reproduz testemunhos que lhe foram enviados, a par do seu próprio comentário pastoral. Este é o testemunho escrito de uma missionária italiana, apresentada no livro como Irmã Maria Teresa, que ensinava numa escola secundária católica perto de Marília, no oeste do estado de São Paulo, Brasil — cerca de setecentos alunos, dos quais uns oitenta internos. Amorth (1925–2016) foi nomeado exorcista da Diocese de Roma em 1986 e foi fundador e primeiro presidente da Associação Internacional de Exorcistas. A narrativa tem a autoridade de um testemunho em primeira mão recolhido por um sacerdote desse ofício; não foi objeto de qualquer investigação canónica, e a Igreja nada pronunciou sobre ela. Marília foi fundada em 1929 na fronteira cafeeira da Alta Paulista; congregações religiosas italianas mantiveram muitíssimas escolas no interior do estado nesse período.

O que o relato descreve é um maleficium — o dano procurado contra uma pessoa por recurso ao demoníaco, comummente ligado a um objeto colocado entre os pertences da vítima. A doutrina católica não atribui a tal objeto poder intrínseco algum; o objeto não é uma causa, mas um sinal do consentimento e da intenção que estão por detrás dele, e a sua destruição é um repúdio, não um contrafeitiço. A gravidade está no próprio recurso. O CIC 2117 condena todas as práticas de magia e de feitiçaria pelas quais se procura domesticar poderes ocultos e pô-los ao próprio serviço, nomeia explicitamente como repreensível o uso de amuletos e sustenta que tal recurso é gravemente contrário à virtude da religião, mesmo quando empreendido para restituir a saúde.

Não houve aqui exorcismo em sentido estrito, nem foi pedido. Não se diagnosticou possessão, não esteve presente exorcista algum e não se usou rito nenhum do Rituale Romanum. O exorcismo solene é um ato público e autoritativo da Igreja, praticado por um sacerdote com licença expressa do bispo (CIC 1673; Código de Direito Canónico, cân. 1172). Tudo o que efetivamente se empregou neste caso pertence a qualquer batizado: a confissão sacramental, a oração privada, a invocação de Nossa Senhora e a destruição dos objetos. O conselho prático de Amorth sobre objetos enfeitiçados segue a mesma ordem — benzê-los, queimá-los ao ar livre a rezar e a invocar o Sangue de Cristo, e lançar em água corrente o que restar —, e ele insistiu em todos os seus escritos em que os meios ordinários vêm primeiro, repetindo que uma boa confissão vale mais do que um exorcismo. Que a irmã tenha levado a rapariga ao sacramento antes de abrir a almofada é o pormenor doutrinalmente significativo da história, e não a fogueira.

As circunstâncias humanas são inseparáveis das espirituais. Uma filha mais velha sem pai, trabalho doméstico não pago em vez de estudo, propinas pagas por um avô na expectativa de que ela um dia sustentasse cinco irmãos, e um casamento anunciado a ela em vez de lhe ser pedido: o feitiço foi o instrumento de um desígnio já formado sobre o futuro de uma rapariga pobre. A Igreja sustenta que o matrimónio se constitui pelo consentimento livremente dado das partes (cân. 1057); o consentimento extorquido por violência ou medo grave é inválido (cân. 1103).

Uma nota editorial. A fonte não nomeia a mulher que trouxe o lenço, nem qualquer tradição religiosa, comunidade ou prática a que pudesse pertencer, e esta enciclopédia não fornece nenhuma. As acusações de feitiçaria têm um longo historial de acabar em violência contra as pessoas e as comunidades sobre quem recaem, e nada neste relato identifica quem quer que seja. O que aqui fica registado é uma rapariga aliviada do medo e uma professora que reparou nela, e não precisa de arguido para ser verdade.

Fontes e citações

  • Gabriele Amorth, An Exorcist Tells His Story 2: More Stories (1992)
  • CIC 1673
  • CIC 2117

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